segunda-feira, 21 de novembro de 2011

PAIS E MÃES DE TODOS OS SANTOS

Dentro do culto a Orisa, nas mais variadas vertentes é visto com naturalidade a prerrogativa do sacerdote responsável pela comunidade de asé iniciar todos os freqüentadores, que se tornarão filhos de santo.

É também uma constante e realidade o fato de que dentro do culto a Orisa, uma pessoa somente pode dar aquilo que ela tem a oferecer. E isso também está relacionado com a transmissão de asé. Uma pessoa somente pode transmitir a energia da qual é detentora.

Partindo dessas premissas, um questionamento se faz necessário: como pode um sacerdote iniciado em um único (ou no máximo em dois) Orisa iniciar pessoas nos mais diversos cultos, de diferentes Orisa, sem possuir o asé desses outros Ancestrais? Como pode iniciar alguém num culto do qual não faz parte?

Muitos podem dizer: Ah! Mas no candomblé sempre foi assim! Ledo engano! O candomblé não se originou nesse molde que hoje é adotado! O candomblé se iniciou com a reunião de pessoas que já vinham de seus locais de origem iniciadas no culto de seus ancestrais. E dessa reunião, no mesmo espaço, e sob a direção de uma sacerdotisa, originou-se o que hoje todos chamam de candomblé.

Mas voltando ao assunto, quando uma pessoa é iniciada, ela adentra não à instituição candomblé. O neófito inicia-se dentro do culto de um Orisa, abrigado na cultura brasileira pela instituição candomblé.

Além do mais, os sacerdotes de culto brasileiro, quando recebem seu título, seja com 01,03, 07 ou quando tiverem dinheiro suficiente para galgar nível sacerdotal, não recebem o asé de todos os Orisa. Recebem apenas e tão somente o título de sacerdote no culto ao Orisa no qual foi iniciado!

Portanto, e mesmo sabendo que aqui o culto brasileiro a Orisa hoje se desenvolve baseado no conceito de que um pai ou mãe de santo pode iniciar uma pessoa no culto de qualquer Orisa, eu não poderia deixar de atentar para essa situação contraditória que se encontra instalada.

Restam as perguntas: Um pai de santo de Ogun tem asé de Osún para transmitir na iniciação? Uma mãe de santo de Oyá tem asé de Osunmarè para transmitir a uma outra pessoa?

Pais e Mães de Santo que adotam o sistema de culto brasileiro a Orisa são pais e mães de santo de todos os santos?

Diante destes questionamentos é que reafirmo o fato de que nem todos os iniciados no culto a Orisa tem caminho para alcançar o sacerdócio. E caso seja identificado esse caminho, desde a iniciação até a obtenção do título de sacerdote, o iniciado precisa acumular iniciações nas mais diversas culturas, para então, e somente então, ter algo a transmitir aos que se propõem iniciar no culto a Orisa.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

E AGORA CANDOMBLÉ?

Pois bem, após todos esses vídeos que postei, acredito que o mínimo que posso perguntar é: E AGORA CANDOMBLÉ?

Pessoas que fazem parte dessa religião simplesmente em rede nacional, defendem o seu fim e ninguém fala nada?

Onde estão todos os grandes do candomblé? Onde estão aos responsáveis pelos Ase Osumarè, Gantois, Casa Branca, Portão, Muritiba, Alaketu, Bate Folha? Onde estão os antigos do candomblé que até agora não se manifestaram?

Falo dos grandes brasileiros para não perder tempo citando todos aqueles que povoam a net na defesa dessa religião brasileira, posicionando-se contrariamente ao resgate cultural de Orisa.

Agora eu quero saber quem é que vai consertar isso tudo o que se formou e que está colocando em risco o meu direito de cultuar Orisa de maneira digna e respeitada socialmente...

O candomblé está reduzindo a todos à condição de criminosos. Realizar práticas rituais acaba de se tornar crime! E agora candomblé?

Até quando teremos que nos sujeitar a esse tipo de humilhação? Até quando teremos que nos utilizar de subterfúgios para exercermos nosso direito à liberdade de culto? Até quando teremos que afirmar a partir de agora que os animais utilizados servem unicamente para serem consumidos nas festas, não havendo nenhum significado litúrgico para a imolação? E agora candomblé?

Muitas casas tradicionais devem se achar protegidas pelo tombamento, não é? Mas o tombamento é do Prédio... e principalmente por ser um prédio tombado, sabiam que não pode ser utilizado para a prática de crime? E agora candomblé?

Eu não tenho que me esconder! Eu não tenho que dar desculpas esfarrapadas! O que eu quero é que as religiões brasileiras de matriz africana resolvam tudo isso! Quero que consertem o erro de durante séculos terem se calado diante de todo o tipo de marginalização imposta! Quero que os responsáveis pelo candomblé se posicionem! Quero saber como fica diante do candomblé uma pessoa que se diz iniciada e, em rede nacional, escracha com ritos sagrados de todo um grupo social! E agora candomblé?

O candomblé é uma instituição religiosa...pois bem: cadê o representante legal dessa instituição para defender seus seguidores? A força do candomblé está apenas na linguá pra falar mal da vida alheia? para falar mal da vida do pai de santo vizinho? Cadê os argumentos sólidos e coerentes do responsável pela instituição? Não existe não é? E agora candomblé?

Alguns dizem que Orisa está acabando na Africa... pois aqui nem começou... e o pouco que existe, está fadado a ser reduzido à prática de crime... E agora candomblé?

E AGORA JOSÉ?

Sem medo de me parecer repetitiva, volto novamente ao assunto veiculado pela RedeTv esta semana, que relaciona o crime de maus-tratos a animais com as religiões de matriz africana.

Vejam este vídeo:



Então pergunto: E agora José?

Será que o funcionário da RedeTv já trocou de religião? Porque o funcionário da Rede Tv não levou opai de santo dele, que realizou a cerimônia de seu casamento, para ser questionado inclusive por ele a respeito dos rituais realizados a Orisa?

Por que será que a invasão da reportagem em conjunto com advogados e polícia não aconteceu na casa do pai de santo do funcionário da Rede Tv, que por sinal também fica em Santo André?

Será que o candomblé do Pai de Santo do funcionário da Rede Tv é vegetariano? Será que lá os Orisa são vegetarianos? Será que lá Osun se contenta com uma folha de alface, dispensando as galinhas ou uma bela cabra?

Onde está o repeito às  convicções pessoais que o mesmo funcionário da Rede Tv exigiu quando o assunto se referia à sua satisfação pessoal? É correto exigir respeito quando não se respeita?

São tantas as dúvidas... são tantas as perguntas... e agora José? Quem vai responder a tantas indagações?

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Programa de TV e Falta de Representatividade






Esta semana, durante o Programa Super Pop da Rede TV, pudemos acompanhar um debate referente ao tema Maus-Tratos a animais. Inúmeras imagens foram veiculadas, mostrando cenas emocionantes de cachorrinhos, gatinhos e outros animais. Não sendo ainda suficiente, relacionaram os citados maus-tratos às religiões de matriz africana, atribuindo às práticas rituais a mesma conotação pejorativa dada àqueles que cometem atos de crueldade com animais domésticos.

Diante de tantos absurdos ditos em tal reportagem, escolhi apenas um aspecto para comentar, por julgá-lo ser neste instante o ponto de maior importância para todos nós que adotamos como religião, o culto a Orisa.

Sob meu ponto de vista, foi lamentável a participação do Umbandista selecionado para representar toda a comunidade de culto afro-descendente do Brasil. Causou-me espanto a falta de argumentos utilizados. Causou-me espanto um umbandista (que em tese não oferece elemento vital animal em seu culto) tenha sido escolhido para representar uma cultura da qual não faz parte. Causou-me espanto as afirmações do representante designado no sentido de que os sacrifícios são feitos apenas para utilizar a carne para a alimentação (se assim for, basta se dirigir a um açougue e comprar a carne politicamente correta, não é?).

Os argumentos jurídicos utilizados pelo representante umbandista foram extremamente primários. Os demais argumentos foram, no mínimo infantis. Não deixaram ele falar? Claro! As pessoas somente estão dispostas a ouvir aqueles que realmente tem algo a dizer. E infelizmente não foi o caso. Argumentos do tipo: “você não conhece a umbanda”, “você não  conhece o candomblé”, “tenho 20 e tantos anos de religião”, “minha família é umbandista e tenho uma filha advogada” não são passíveis de consideração num debate onde as pessoas são preparadas para defender as suas idéias com argumentos sólidos.

Em nenhum momento, foram utilizados argumentos culturais e sociais de toda uma nação. Em momento algum foram utilizados argumentos que demonstrassem a enorme distância que existe entre maus-tratos a animais e ofertas rituais. Em nenhum momento foi argumentado no sentido de se explicar qual a finalidade da utilização de uma força vital em benefício de outra vida.

Os outros debatedores utilizaram o conceito pejorativo da “macumba e despacho” que está enraizado no conceito de candomblé no Brasil.

Lamentei também a postura do representante umbandista, criticando o pai de santo de Santo André. Criticou-o pq ele não é filiado à Federação do umbandista? Isso não é argumento. E aquele indivíduo, marmoteiro ou não, é o retrato da instituição candomblé no Brasil. Filiado ou não, deveria ter sido defendido já que representante (mesmo que ilegal) de uma religião brasileira.

Fico indignada com o fato de que em todos os setores os menos favorecidos são sempre sub-julgados... Porque a reportagem do programa não invadiu uma casa tradicional de candomblé, como o Gantois, Opo Afonjá,, etc..., seja na Bahia ou mesmo em Sp, para então mostrar os ditos “maus-tratos”? Por que não invadiram Centros Culturais luxuosos existentes em São Paulo, Rio de Janeiro? Por quê????

Seria por questões religiosas? Ou será que também o financeiro nesta hora crucial é fator dominante? Ou será que é porque estas grandes casas são freqüentadas por políticos, empresários, artistas?

A “profecia” está se realizando..E o fim está próximo. Não temos representantes preparados. Não temos pessoas com argumentos sólidos. Não temos organização. E a instituição está fadada ao extermínio... Daqui uns dias, todos passarão de candomblecistas a criminosos...

domingo, 18 de setembro de 2011

Breve descrição histórica de Osogbo


Acredita-se que a cidade de Osogbo foi fundada por volta de 400 anos atrás. É parte da comunidade mais ampla iorubá, dividida em 16 reinos. Diz a lenda que foram governadas pelos filhos de Oduduwa, o fundador mítico, cuja morada em Ile-Ife, a sudeste de Osogbo, ainda é considerado como o lar espiritual de o povo iorubá.
O mais antigo assentamento parece ter sido no Bosque Osogbo, incluindo-se palácios e um mercado. Quando a população expandiu a comunidade mudou-se para fora do bosque e criou uma nova cidade.
Em  1840, Osogbo se tornou uma cidade de refugiados para as pessoas que fugiam da Jihad Fulani.
Os ataques Fulani em Osogbo foram repelidos e, como resultado, Osogbo se tornou um símbolo de orgulho para todos os iorubás.
Durante a primeira metade do século 20, a cidade de Osogbo expandiu consideravelmente. Em 1914 o governo colonial britânico começou. Foi entregue sob um sistema de governo indireto através governantes tradicionais, a autoridade do Rei e sacerdotes foram sustentadas. A maior mudança foi provocada a partir de meados do século 19 através da introdução do islã e do cristianismo. Islã se tornou a religião dos comerciantes e casas de decisão . Por um tempo, todas as três religiões co-existiram, mas como o passar do tempo tornou-se menos na moda ser identificado com o Ogboni e cultos a Osun.
Na década de 1950 as mudanças políticas e religiosas combinadas estavam tendo um efeito prejudicial na Floresta: responsabilidades habituais e as sanções foram enfraquecendo, santuários estavam se tornando negligenciados e sacerdotes tradicionais começaram a desaparecer. Tudo isso foi agravado por um aumento nos saques de estátuas e esculturas móveis para alimentar um mercado de antiguidades. Neste período, os arredores do bosque adquiridos pelo Departamento de Agricultura e Florestas para experimentos agrícolas. Árvores foram derrubadas e plantações de teca estabelecidas; esculturas teriam sido roubados e caça e pesca começaram a ser permitidos - antes proibidos no Bosque Sagrado.
Foi neste momento crucial da história do bosque que aaustríaca Suzanne Wenger mudou-se para Osogbo e, com o incentivo do Rei e com o apoio da população local, formaram o movimento Nova Arte Sagrada para desafiar especuladores de terra, repelir invasores, proteger santuários e começar o longo processo de trazer o lugar sagrado de volta à vida, estabelecendo-o como o coração sagrado de Osogbo.
Os artistas deliberadamente criaram grandes, pesadas ​​e fixas esculturas em cimento, ferro e barro, em oposição aos tradicionais de madeira menores, a fim de que suas formas arquitetônicas intimidatórias ajudariam a proteger o Bosque e inibir os roubos. Todas as esculturas foram feitas em pleno respeito pelo espírito do lugar, com a inspiração da mitologia iorubá e em consultas com os deuses em um contexto tradicional.
O novo trabalho fez com que o Bosque voltasse a ser um símbolo de identidade para o povo iorubá.Muitos da diáspora Africano agora empreendem numa peregrinação ao festival anual.
Em 1965 parte do Bosque foi declarado um monumento nacional. Em 1992, sua área foi estendida, de modo que agora são 75 hectares protegidos.

Fonte: UNESCO.



Bosque Sagrado de Osun - Osogbo

A densa floresta do Bosque Sagrado de Osun nos arredores da cidade de Osogbo, é um dos últimos remanescentes da floresta primária no sul da Nigéria. 

Considerada como a morada da deusa da fertilidade Osun - uma das que integram o panteão de desuses Yorubá - a paisagem do bosque e de seu rio sinuoso é pontilhada com santuários e templos, esculturas e obras de arte em homenagem a Osun e outras divindades. 


O bosque sagrado, que é agora visto como um simbolo de identidade para todos os povos Yorubá, é provavelmente o último na cultura Yorubá.




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O Bosque Sagrado de Osun é o maior e talvez o único remanescente de um fenômeno generalizado, uma vez que usado para caracterizar cada assentamento iorubá. É uma expressão tangível do iorubá e de sistemas divinatórios; o seu festival anual objetiva a busca por uma vida próspera e de prosperidade,  fortalecendo o vínculo entre as pessoas, seu governante e a deusa Osun.

O bosque abrange 75 ha de floresta circunscritos ao lado do rio Osun, na periferia da cidade Osogbo, Western Nigéria. Cerca de 2 milhões de pessoas vivem em Osogbo.O bosque, para os Yorubás, é o domicílio de Osun, a deusa da fertilidade. Os caminhos durante o  ritual levam devotos a 40 santuários, dedicados a divindades iorubá Osun e outros, e para nove pontos específicos de culto ao lado do rio. Osun é a personificação do iorubá "águas da vida" e a mãe espiritual do município Osogbo. Ele também simboliza um pacto entre Larooye, o fundador da Osogbo, e Osun. Segundo suas crenças, a deusa daria prosperidade e proteção para o seu povo se eles construíssem um santuário a ela e respeitassem o espírito da floresta. Ao contrário de outras cidades iorubás cujo sagrados bosques têm atrofiado, ou desapareceram, o Bosque de Osogbo, ao longo dos últimos 40 anos, foi re-estabelecido como um foco central de vida da cidade. O Bosque Osogbo é agora visto como um símbolo de identidade para todos os povos iorubás, incluindo os da diáspora Africana, sendo que muitos dos quais fazem peregrinações ao festival anual.




O bosque tem uma floresta razoavelmente tranquila, que suporta uma flora rica e diversificada e fauna - incluindo o macaco branco- ameaçado de extinção. Algumas partes foram atingidas no período colonial, e as plantações de teca e agricultura foram introduzidas, mas esses locais estão agora sendo recuperados. O bosque é um santuário sagrado onde santuários, esculturas e obras de arte horam Osun e outras divindades Yorubas. Tem cinco principais divisões sagradas associadas com diferentes deuses e cultos.

O rio Osun serpenteia através do bosque inteiro e ao longo de seu comprimento são nove pontos de adoração. Em toda extensão o largo rio é margeado por árvores da floresta. Suas águas significam uma relação entre a natureza, os espíritos e os seres humanos, refletindo o lugar dado à água na cosmologia iorubá como simbolizando a vida. O rio é acreditado ter poder de cura, poderes de proteção e fertilidade. Os peixes dizem terem sido usados pela deusa Osun como mensageiros da paz, bênçãos e favores.



 


Tradicionalmente, árvores sagradas, pedras e objetos de metal, juntamente com lama e esculturas em madeira, definem as divindades no bosque. Durante os últimos 40 anos, novas esculturas foram erguidas no lugar dos antigos e gigantes, os imóveis criados em espaços ameaçados no bosque. Estas esculturas são feitas de uma variedade de materiais - pedra, madeira, ferro e concreto. Há também pinturas nas paredes e tetos decorativos feitos de folhas de palmeira.
Há dois palácios. A primeira é a parte principal do santuário a Osun em Osogbo. O palácio é o local onde segundo a crença dos Yorubás Larooye mudou-se para diante da comunidade estabelecer um novo assentamento fora do bosque. Ambos os edifícios são construídos com paredes de barro com telhados de zinco suportado variadamente por lama e pilares de madeira esculpida. 
O festival anual de Osun em Osogbo é um evento de 12 dias realizado uma vez por ano no final de julho e início de agosto. O bosque é visto como o repositório da realeza, assim como o coração espiritual da comunidade. O festival invoca os espíritos dos reis ancestrais, O rei oferta presentes para Osun, bem como reafirma e renova os laços entre as divindades representadas no Bosque Sagrado e o povo de Osogbo. O final do festival é uma procissão de toda a população, liderada pela Arugba e chefiada pelo Rei e sacerdotes, todos acompanhados por tambores, cantando e dançando.


 Fonte: UNESCO.

sábado, 17 de setembro de 2011

Ritual de Ipadè

Várias são as conotações dadas para a palavra ipadè dentro de diferentes culturas no candomblé.

Aterei-me aos conceitos inerentes à cultura de Orisa de minha comunidade. Denominamos ipadè a reunião para Esu.

E a reunião não é de outros Orisa, mas sim, de energias que controlam todos os movimentos espirituais da nossa comunidade.

Durante o ritual de ipadè para Esu, louva-se a ancestralidade feminina (através de Iyaami) e masculina (através de Egungun). A reunião destas duas energias é então encaminhada a Esu para que ele a movimente de forma direcionada,equilibrando-as por determinado tempo.

É certo que durante o ipadè são citados os nomes de Orisa femininos e masculinos. Todavia, estas citações são efetuadas de forma representativas das ancestralidades masculinas e femininas.

O ipadè é realizado uma vez por ano obrigatoriamente. Porventura, havendo determinação de Ifá, realizar-se-á quantos rituais forem necessários para que o equilíbrio seja restabelecido.

Durante a celebração do ritual é necessário conhecer os principais e melhores caminhos de Esu, para que se direcione adequadamente a energia movimentada e reunida, visando assim, alcançar de forma satisfatória os objetivos individuais e os objetivos também de toda a comunidade.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A Última Alternativa!

Duas são as classes dominantes das pessoas que procuram o candomblé no Brasil: os desesperados e os excluídos socialmente.

Todas as pessoas que passam por dificuldades na vida, e que sozinhos não conseguem superá-las busca o auxílio religioso. Primeiro, buscam a Deus nos mais diversos seguimentos religiosos (igreja católica, protestante, budismo, etc...) socialmente aceitos.

Se ainda assim nada for resolvido e, como se chegassem a conclusão de que Deus nada fará por eles, acabam por buscar então o candomblé, atrás de uma "mágica" que resolva todos os problemas instantaneamente.

Encaram o candomblé como o caminho a ser seguido por todos aqueles que Deus abandonou.

Todo esse grupo, forma o contingente que aceita todo o tipo de humilhação; entende Orisa como o agente punidor, que dá surra e que não o ajuda também por ser uma pessoa que comete muitos erros. Só que os erros agora não são cometidos com Deus, mas sim com os pais e mães de santo, com a casa e com o próprio Orisa.

O segundo grupo dominante do candomblé é aquele formado por todos aqueles que são excluídos socialmente e que teriam, para fazerem parte de outra religião, que modificar drásticamente o modo como escolheram levar a vida.

Por encontrarem no candomblé a abertura tão almejada, acabaram por se apossarem da cultura como um todo, modificando as regras pré-existentes, modificando histórias, adicionando elementos inexistentes na religião candomblé original, enfim, transformando o candomblé nisso que encontramos hoje.

Este segundo grupo acabou por dominar o grupo dos desesperados, e hoje estão no comando. E os que também são excluídos socialmente, mas que ainda não alcançaram o posto de dirigente, almejam isso como quem almeja a própria redenção.

Muitos, com certeza, podem discordar do que eu digo. Mas como eu sempre digo, a minha intenção não é agradar. Pelo contrário. Acredito que as pessoas devem parar de tampar o sol com a peneira, e tomarem consciência de que o candomblé pensado no início, simplesmente não existe mais. É preciso que as pessoas deixem de ter em suas mentes que Orisa é mágica. É preciso que as pessoas deixem as mistificações de lado.

O culto a Orisa precisa de pessoas que não tenham Orisa como última alternativa, mas sim, como primeira alternativa. Precisamos de pessoas que entendam que no passado encontraremos respostas e forças para fazer um futuro melhor, para que possamos caminhar no destino pré-estabelecido, conquistando dia após dia,   o direito de viver nessa terra com dignidade.

Mais uma conquista do Egbé Asé Elempé


Gostaria de compartilhar com todos os meus amigos mais uma conquista do Egbé Asé Elempé.

Após decidirmos compartilhar com todos a nossa concepção de cultura de Orisa (que visa primordialmente resgatar os valores do povo Yorubá, perpetuando o conhecimento milenar daquele povo com relação à ancestralidade), decidimos que seria importante adquirirmos um local específico para esta cultura, que servirá, num futuro próximo, de ponto de apoio e pesquisa para todos aqueles que buscarem a originalidade do culto a Orisa.

E assim foi feito.

A área destinada para a consecução destas metas já nos pertence.





Sistematicamente publicarei aqui a evolução da construção, para, num futuro bem próximo, poder convidar a todos para a inauguração.

Espero poder contar, nesta ocasião, com a participação de todos os amigos!

sábado, 27 de agosto de 2011

A Etica e a Moral na Religião Tradicional Africana


Ao contrário do que muitos pensam, a ética e a moral são de importância substancial no pensamento e na vida dos africanos, que são baseadas nos costumes, em leis tradicionais, tabus e tradições de cada um dos povos da África. Deus é visto como o derradeiro sancionador e sustentador da moralidade. O relacionamento humano pelo parentesco e vizinhança é extremamente importante e a ética e moral tradicionais são construídas, largamente, através das relações humanas.

Moralidade pode ser resumida, em Yorùbá, pela palavra Ìwà - caráter. Os Akan de Gana chamam o caráter de Suban. Caráter é a essência da ética africana e sobre ele se estabelece a vida de uma pessoa. Deus exige que o homem seja puro eticamente. Deus é o buscador de corações, que a tudo vê e sabe e cujo julgamento é correto e inevitável. Deus julga os homens por seu comportamento aqui e agora, bem como no porvir. Dessa forma a paz na vida após a morte é decidida de acordo com a moral exercida, pelo ser humano, sobre a terra. Mau comportamento pode destruir o destino de uma pessoa, enquanto bom caráter é uma armadura suficiente contra o mal e a desgraça.

Os costumes regulam o que deve e o que não deve ser feito. De acordo com Mbiti: "Roubar, agredir as pessoas, mostrar desrespeito aos mais velhos, mentir, praticar feitiçaria, dormir com a mulher de alguém, matar, caluniar as pessoas e assim por diante são consideradas grandes ofensas, que podem ser severamente punidas pela sociedade através do degredo, indenização, pagamento de multas, espancamento, apedrejamento e até mesmo a morte. Por outro lado, a bondade, a cortesia, a generosidade, a hospitalidade, o respeito, a diligência, a frugalidade e o trabalho duro são aspectos da moral ensinadas às crianças em várias comunidade africanas, como princípio básico de vida." (Mbiti, John. Introduction to African Religion. London:Heinemann.
Os Yorùbá e, na verdade, os africanos têm a moralidade como a essência que torna a vida alegre e agradável. Para os Yorùbá, segundo Bólájí Ìdòwú, o bom caráter (ìwà rere) deve ser a mola mestra na vida das pessoas. De fato é isso que distingue o ser humano dos animais. Quando os Yorùbá dizem de alguém O şe Ènìyàn (os atos da pessoa), querem dizer que ela se comporta como deve, ou seja, ela mostra que sua vida e suas relações com os outros são regrados pelas suas melhores características. A descrição contrária kìí şe ènìyàn, n şe lof’awon ènìyàn bora (Ele não é uma pessoa, ele assumiu a pele de uma pessoa). Isso significa que a pessoa é socialmente indigna; em consequência de sua característica, não está apta a ser chamada de pessoa, embora tenha a aparência de uma.

Em geral, deve-se dar ênfase a que Deus, as divindades e os antepassados requerem um bom comportamento dos seres humanos.

Mas podemos perguntar por que as pessoas que seguem a Religião Tradicional Africana, assim como os seguidores de outras religiões (cristianismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo etc), praticam atos imorais? A resposta é simples: hoje, muitas pessoas professam uma determinada religião, porém deixam de agir de acordo com os princípios e os ditames dessa mesma religião, que é a principal causa para os atos de corrupção, violação dos Direitos Humanos, péssimas práticas eleitorais, etnicismo, bem como outras práticas imorais e aéticas.

No entanto, esses problemas não são insuperáveis, basta que as pessoas façam valer aquilo que aprenderam e unam a religião à moralidade, que são coisas indissociáveis. Um adágio Yorùbá diz Ìwà l’èsìn, Èsìn ni Ìwà (religião é uma exibição de moralidade, moralidade é o maior ato de adoração). Por isso é que os adeptos das diversas religiões devem saber e acatar que nossos atos de adoração só se tornarão dignos e significativos ao Criador, se eles forem acompanhados pela ética e pela moral.

Texto de Mário Filho
Bacharel em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública, e Ciências da Religião (ambas pela PUC/SP)

domingo, 7 de agosto de 2011

E você? O que fez ou faz?

Este final de semana, uma experiência interessante me acometeu e gostaria de compartilhar com todos.

Tive a oportunidade de sentar em uma mesa juntamente com três evangélicos de diferentes segmentos. Todos eles, no passado, eram do candomblé. Todos iniciados, respectivamente nos Orisa Ogun (dois deles) e Osún.

Em determinado momento da conversa, que fluía de forma agradável, inevitavelmente o assunto se voltou para a religião. E por incrível que pareça, após o desconforto inicial, a conversa voltou a ser agradável.

Não é novidade para ninguém a intransigência dos evangélicos em seus posicionamentos contrários ao candomblé, relacionando todas as práticas rituais a oferendas ao demônio.

E pior: afirmam categoricamente que Orisa é o próprio demônio, que acaba possuindo o corpo daquele que não está em estado de graça com Deus, devido à constante prática do pecado.

Interessante que todos eles que me fizeram as afirmativas acima, falavam como se grande propriedade sobre o assunto tivessem. Afinal, são todos ex-macumbeiros. Todos freqüentaram durante anos o candomblé. Todos se deixaram envolver pelas promessas de ganhos fáceis. Todos se deixaram iludir pela beleza das festas e também pelas orgias que acontecem no final dessas mesmas belas festas. Todos se deixaram enganar por tudo aquilo que até hoje acontece (mas somente na casa do vizinho, não é? Rs!)

Bom, pelo pouco que me conhecem, devem estar pensando como pude afirmar acima que a conversa voltou a ser agradável... E por incrível que pareça, voltou sim...

Tive a oportunidade de mostrar para os três evangélicos ex-macumbeiros que a minha realidade não é a realidade que eles conheceram.

Tive a oportunidade de demonstrar que faço parte de uma cultura que eles infelizmente não tiveram a oportunidade de conhecer. Cultura essa que não se assemelha ao candomblé. E sabe porque não se assemelha? Porque a minha cultura é baseada em valores sólidos éticos e morais. Porque na minha casa não há a busca pelo ganho fácil em detrimento do destino de pessoas. Porque na minha cultura há o respeito pelo semelhante. Porque a minha cultura, assim como na religião ou doutrina deles, cremos na existência de um único Deus.

E sabem o que ouvi dos evangélicos ao final da conversa: Deus respeita a cultura!

Para muitos isso pode parecer uma grande perda de tempo. Outros podem afirmar que não se importam com a opinião de quem quer que seja, muito menos dos evangélicos.

Mas eu me importo sim. E sabem por quê? Se analisarmos a situação política atual do Pais em que vivemos, é clara a maciça representação dos evangélicos no setor responsável por criação das leis que regem a vida em sociedade.

Pois bem: se o resgate da cultura não se iniciar imediatamente, o candomblé (e por tabela a minha cultura), além de continuar na marginalização, será, em breve, reduzido à ilegalidade também.

Hoje, se pararmos para analisar a legislação penal, e se uma fiscalização efetiva houvesse, é claro que já poderiam enquadrar as nossas práticas rituais num sem número de infrações penais...

Nessa árdua batalha a minha contribuição foi pequena? Sem dúvida! Mas me sinto reconfortada por ter iniciado uma ação na defesa da minha ancestralidade, ao contrário da maioria, que teria até maior condição de alcançar um público infinitamente maior do que o meu, mas que prefere se esconder atrás da falta de humildade para reconhecer que para vivermos em sociedade, precisamos em primeiro lugar, ser aceitos.

E eu consegui ser aceita! Consegui que respeitassem a minha cultura! E isso me deixa feliz...

E você? O que fez ou está fazendo pela sua religião, pelo seu ancestral?

Gírias Afro-Brasileiras (Parte 01)

ORISA META META


Comumente ouvimos pessoas que fazem parte de religiões afro-brasileiras, utilizarem termos que não encontram significado no idioma inerente às mais diversas culturas de Orisa, Vodun e/ou Nkisse.

Uma das mais comuns é a expressão “meta-meta”.

Atribuem a essa expressão, basicamente três significados: Orisa meta-meta seria aquele que é metade alguma coisa e metade outra alguma coisa, formando, então um terceiro elemento. Exemplo 1: Osún Opara = metade Osún, metade Ogun; Exemplo 2: Oyá Onira = metade Oyá, metade Osún.

O segundo significado atribuído é aquele em que afirma que um Orisa seria metade aboro e metade iyagbá. Exemplo 3: Logun Edé: seria meta meta, por ser a junção de Osún com Osossi, chegando alguns a colocar o coitadinho vestido metade de homem, metade mulher!

A terceira e última vertente mais conhecida é aquela que afirma que meta-meta é aquele Orisa que é seis meses macho, seis meses fêmea. Essa versão é geralmente utilizada para Osumarè,Logun Edé e Osaniyn...

Bom... meta, em Yorubá possui como significado a palavra “três”. Não tem relação com a palavra metade, ou meio...

É certo também, que a principal característica da cultura afro e afro-brasileira é a sua transmissão baseada na oralidade.

Mas a coerência é necessidade básica.

Não há possibilidade de um ancestral ser meio alguma coisa. Não há possibilidade de fusão de dois ancestrais para a formação de um terceiro. E sinceramente, não acredito que alguém ainda pense na possibilidade de um ancestral ser meio macho, meio fêmea...

sábado, 30 de julho de 2011

Dizem que Deus é Brasileiro... Será que Orisa também é?

É comum nos dias de hoje encontrarmos pessoas de religião afro-brasileira, e que possuem como objeto de culto os Orisa (denominação utilizada de forma genérica por muitos para designar tanto os próprios Orisa, como Vodun e Nkisse), criticando o chamado por eles Africanismo.

E os mais diversos argumentos são utilizados, desde os de cunho preconceituoso e discriminatório, até aqueles que tentam colocar a "raça" brasileira em um patamar de maior evolução que os africanos. E pasmem, africanos estes detentores do culto a Orisa em sua originalidade.

É compreensível até que alguns ajam desta maneira. Afinal, todos esses que adotam essa postura, no meu ponto de vista, são aqueles que durante anos, vivenciaram e aprenderam conceitos de forma superficial, e, após anos vivendo na ignorância, e transmitindo também essa mesma ignorância para seus "filhos de santo", não conseguem, nesta altura de sua trajetória de vida, terem a humildade suficiente para assumirem perante a sua comunidade, que sempre estiveram equivocados.

Fato é também que nós brasileiros, por mais que nos esforcemos, dificilmente conseguiremos aqui em nosso País, reconstituir de forma integral, o culto original. Mas a nossa falta de condições e de capacidade para tanto, não nos dá o direito, a meu ver, de menosprezar a cultura africana, para desta maneira, tentar convencer se não a nós mesmos, a nossos seguidores, que a nossa cultura é melhor... Pelo contrário! Nós brasileiros, que nos apropriamos (ou para alguns se sentirem mais confortáveis - recebemos como herança cultural) do objeto de culto africano, deveríamos ter a humildade suficiente para reconhecer o quão ainda temos que melhorar, para que alcancemos patamar um pouco mais elevado de valores e posicionamento ético frente a cultura de Orisa.

Somente a título de exemplificação do que tento aqui expor, vejam: a maioria dos brasileiros em algum momento da vida já devem ter ouvido falar de Padre Cícero,que graças à fé das pessoas, fez com que Juazeiro do Norte fosse considerado um dos maiores centros religiosos da América Latina, atraindo milhões de romeiros todos os anos. Pois bem... e a maioria das pessoa também já viram a imagem de padre Cícero, com sua batina e seu chapéu...

Já imaginaram se algum dia, os gaúchos do Rio Grande do Sul, resolvessem que, tendo como objeto de culto o mesmo Padre Cícero do Nordeste, deveriam vestí-lo com bombacha e adicionar a sua imagem uma cuia de chimarrão? Deixaria de ser padre Cícero? Claro que não! Mas a sua originalidade já estaria perdida. Provavelmente, os seguidores de Padre Cícero do Norte do País encararia tal atitude dos gaúchos como uma grande ofensa! E isso falando somente de um único País!

E isso se dá com qualquer cultura! Porque toda a cultura possui os seus elementos fundamentais!

Então, sob o meu ponto de vista, os brasileiros de religião afro-brasileira precisam rever seus conceitos... Afinal de contas, quem é que realmente tem motivos de sobra para se sentir ofendido e invadido dentro de sua cultura, religiosidade é fé?

Porque, até onde sei, Orisa não é brasileiro... ou é?

terça-feira, 5 de julho de 2011

Sapato ou pés descalços: qual o verdadeiro fundamento?

Desde o momento em que uma pessoa começa a frequentar um ilè asé, uma das primeiras recomendações é que deve sempre permanecer de pés descalços.

E isso realmente tem sentido, já que no momento em que a pessoa está em contato direto com a terra, melhor se torna a transmissão do asé.

Todavia, é natural também que identifiquemos uma pessoa que tem cargo dentro da comunidade pelo fato de que estas pessoas estarão sempre calçadas. Iyálorisa e Ekeji então! Quanto maior o salto maior o conhecimento!!!!!!!!!! (sic)

Pois bem, então pergunto: se a transmissão do asé ocorre de forma mais efetiva com o contato dos pés com a terra, pessoas que possuem cargo não precisam mais dessa transmissão? Estão já acima do bem e do mal?

Para mim a realidade é muito simples: as pessoas não sabem qual o significado real de estar em contato direto com a terra. E utilizam o argumento de que abian e iyawò devem permanecer descalços pelo simples fato de entenderem que eles são nada... Ressalto também que na época da escravidão, os escravos não podiam utilizar sapatos - cujo uso era reservado apenas aos senhores de escravos.

Será isso apenas mais uma coincidência?

Pés descalços não é sinônimo de humilhação! Pés descalços não é sinônimo de submissão! Pés descalços é antes de tudo sinônimo de respeito! Logo, para mim, os detentores de cargos dentro de um ilè asé deveriam ser os primeiros a estar em contato com a terra, podendo assim, ter condições de melhor transmitir o asé pretendido.

Do arroz elétrico ao sapatinho de cristal...

Quando falamos em Orisa no Brasil, duas características são marcantes: oferendas deixadas por dias no local de culto e luxo das festas oferecidas...

Este é mais um ponto que não consigo encontrar lógica (se alguém puder me ajudar agradeço).

Em um ilè asé acredito que a finalidade primordial é o bem estar da comunidade, com a busca contante de saúde e prosperidade para todos os integrantes da casa. Pois bem, tendo esse ponto como pacífico, questiono-me: como conseguir tais objetivos em meio a tanta sujeira? E aquelas comidas oferecidas que apodrecem e cheiram mal? E os arroz elétricos que são "gerados" na oferenda - aqueles bigatinhos brancos enlouquecidos que se deliciam na comida apodrecida? Isso sem falar nas demais espécies que surgem como por encanto e que são das mais variadas cores e tamanhos...

Qual a finalidade das pessoas ficarem em contato com os animais mortos por dias - animais estes que criam vida, já que recheados de larvas (só faltam sair andando)?

O interessante é que durante as festividades, as mesmas pessoas que vivem na sujeira e podridão dias e mais dias, vestem suas lindas e caras roupas - geralmente compradas com muito sacrifício - vestem seus lindos sapatinhos de cristal, com saltos que chegam às alturas, simplesmente para darem close na sala e saírem lindos nas fotos que minutos após a festa já estarão disponíveis para que todos se surpreendam com tanto luxo...

Por isso que hoje venho pedir que me ajudem a entender essa lógica brasileira... quero entender o significado da sujeira e podridão e também a necessidade de mostrar um luxo que na maioria das vezes não é condizente com o estilo de vida da maioria das pessoas...

Alguém se habilita?

sábado, 25 de junho de 2011

Do Império ao Candomblé


A cultura yorubá possui grande riqueza cultural, englobando aspectos religiosos, culinários, musicais, de expressão corporal, vestimentas, etc... E toda essa diversidade influenciou em muito a religião brasileira denominada candomblé, com a vinda do povo Yorubá para o Brasil, na condição inicial de escravos.

Falarei hoje um pouquinho a respeito das vestimentas utilizadas pelo povo yorubá e as diferenças com relação ao candomblé.

A cultura tradicional Yorubá é pautada pela simplicidade e rusticidade. Durante o culto à ancestralidade o melhor é oferecido, mas sempre preservando as características culturais daquele povo, já que sua cultura é sua maior riqueza.



Como vemos acima, principalmente as mulheres são detentoras de grande vaidade, mas sempre buscando ressaltar os elementos inerentes a sua cultura.

O mesmo não acontece com o candomblé. Não existe no candomblé (enquanto religião brasileira) uma identidade cultural brasileira. No culto a Orisa no candomblé, são utilizadas vestimentas que são oriundas da cultura européia, utilizadas por volta do século XVII/XVIII.






Como podemos observar pelas fotos acima,todos os modelos de roupas (vulgarmente chamados de baianas) utilizados no candomblé são inspirados nos modelos das vestimentas européias...

Outro exemplo da influência européia no candomblé é no que se refere às paramentas de Orisa... vejam alguns exemplos:

Ade Osun candomblé

Coroa do império portugues

Coroa Sango candomblé

Coroa imperador

Utensílio do império

Utensílio do império

O que às vezes me pergunto é porque o candomblé se utiliza de elementos culturais justamente do povo europeu que escravizou nossos antepassados... antepassados esses que foram responsáveis pela religião que hoje o povo de candomblé professa.

E isso sem citar as fantasias alegóricas que hoje vemos expostas na internet.

É certo que todos querem dar o melhor ao Orisa que cultua... mas o melhor é vesti-los como os seus algozes? O melhor é vesti-los como se vestiam quem sub-julgou todo um povo, todos seus descendentes?

A cultura de Orisa, no meu ponto de vista, precisa ser resgatada em todos os seus aspectos. Somente esse resgate cultural será capaz de manter viva a história de todo um povo, não apenas na memória de alguns, mas sim no cotidiano de cada um de nós.

domingo, 19 de junho de 2011

A beira do caos!

Desde o dia em que decidi criar este espaço para a derrubada de mitos inerentes a Orisa, tive em mente que assuntos não faltariam... São tantas as distorções cometidas no candomblé, que fiquei sem saber por onde começar... mas comecei.

Agora surge um novo obstáculo: como continuar? E essa dúvida, justifico por um único motivo: as distorções são tantas e tamanhas, que não sei nem mais o que falar, ou a que me dedicar.

Como é de conhecimento de todos, a cultura de Orisa, data de muitos e muitos anos e retrata toda uma crença de um povo. Trazida para nosso País por descendentes africanos, todo o conhecimento vêm paulatinamente sendo perdido... e pior, passou a ser deturpado.

Com a instituição do candomblé como religião, alguns benefícios (quais, ainda não sei) dizem que foram obtidos... Será? Todas as religiões são redutos de pessoas escravizadas por uma crença baseada apenas na fé cega.

Aqueles capazes de arrebanhar um maior número de seguidores, passa a fazer parte da classe dominante, influenciados pela possibilidade única e simples de ganhar dinheiro em cima da fé das pessoas. E isso também hoje acontece com Orisa, que se reduziu a apenas uma religião brasileira. Mas Orisa é muito mais que apenas religião.

Com a facilidade de obter conhecimento em função da rapidez com que podemos hoje trocar informações, pensei que ficaria mais fácil... ledo engano! O que vejo é a maior facilidade de pessoas enganarem seus semelhantes, com falsas promessas, invenções e utilização de todas as formas possíveis na busca desenfreada pelo financeiro.

O cúmulo dos cúmulos encontramos agora todos os dias na internet. Pessoas se dizendo sacerdotes de uma cultura tão rica como a de Ifá prometendo absurdos conseguidos com a simples oferenda de um cabrito e, é claro, o pagamento pelo "trabalho".

A nova moda agora é a oferta para pais e mães de santo e egbomi de assentamentos de Odu para Orisa... prometem assentar Odu dentro do Igbá de Orisa com apenas um cabrito! Gente! Fala sério, né?

Até onde será permitido que essa palhaçada continue? Até quando pessoas vão continuar utilizando o nome de Ifá e de Orisa desta maneira? Até quando as pessoas vão continuar a ser enganadas? Até quando as pessoas continuarão a ser iludidas?

Isso sem contar nações que cultuam mais de trinta "qualidades" de Sango,por exemplo. Aí pegamos as ditas qualidades e vemos que muitas delas não passam de Orunkó dados a um único Orisa! E tem gente que pega todas essas bobagens e encaram como se fosse a verdade absoluta!

Variações de cultura é perfeitamente possível! E essa variedade é que torna a cultura de Orisa tão rica! Inadmissível são as invenções, a busca pelo dinheiro fácil, baseada na fé das pessoas, a falta de comprometimento com o destino alheio, a falta de caráter, o exibicionismo que tomou conta dos locais de culto a Orisa neste País.

Falar o quê? Pensar o quê? Fazer o quê?

O engraçado é que estas situações, embora ocorram em todos os locais, somente são apontadas quando acontece no nosso vizinho... Aí me pergunto? Como ignoram se todos se dizem praticantes de uma única religião? Todos não se dizem de candomblé? Então não importa se é na sua porta ou na porta ao lado! É na religião de todos vocês e na minha cultura!

Não sei se continuarei a demonstrar as deturpações, se divulgarei a minha cultura, se farei os dois ou se não falarei sobre algo que seja relevante... A única coisa que tenho certeza é que está tudo cada vez pior, praticamente chegando ao caos...

domingo, 12 de junho de 2011

Sango: Eborá Único e Soberano!

Voltando ao tema referente às qualidades de Orisa que são cultuados no candomblé brasileiro, falarei hoje a respeito de Sango quebrando alguns mitos com dados históricos referentes a Ajaká, Aganjú, Gbarú e Afonjá.

Sango, filho de Oranmiyan e Torosi, foi o quarto Alafin dos Yorubás e o único Eborá a ser divinizado e elevado à categoria de Orisa. Detentor de grande conhecimento de magias, utilizou desta habilidade para impor respeito aos seus súditos.

Sango reinou pelo período de 07 anos, sendo que a totalidade deste período foi marcada pela sua inquietude. Após deixar o reinado, foi sucedido por seu irmão Ajaká.

Ajaká, também filho de Oranmiyan não foi elevado à categoria de Orisa. Não foi divinizado. Antes da subida ao trono de Sango, Ajaká, por ser mais velho, teria sido coroado rei. Todavia, em função de seu temperamento dócil, foi retirado do poder, já que perdeu as forças sob seus súditos. Após Sango deixar o trono, Ajaká voltou ao governo, desta vez mais rigido e permaneceu no Poder.

Logo, temos como primeira conclusão que Ajaká era IRMÃO de Sango e não uma qualidade deste Orisa.

Com a saída de Ajaká do poder e como Sango não havia deixado descendentes, o Poder foi tomado por Aganjú, FILHO DE AJAKÁ e, portanto, SOBRINHO de Sango.

O reinado de Aganjú foi longo e próspero. Embelezou todo o reino e tinha a facilidade de domar animais selvagens. O fim de seu reinado se deu após uma batalha com um homônimo seu, que lutou para conseguir a mão da filha do Governante Aganjú.

Como segunda conclusão temos então que Aganjú não é uma qualidade ou caminho de Sango. Aganjú é simplesmente sobrinho de Sango e também não foi elevado à categoria de Orisa.

Após a queda de Aganjú do poder, seguiu-se o reinado de outros 16 Alafins, cuja relação poderá ser encontrada no final deste texto.

Já no ano de 1732, o que é muito recente em se falando de cultura Yorubá, encontramos o reinado de Gbaru. Seu reinado durou até o ano de 1738. Da mesma forma que os demais sucessores do trono após Sango, não há qualquer relato a respeito de que Gbaru foi elevado à categoria de Orisa. Não é portanto, qualidade ou caminho de Sango e pior ainda, nem seu parente foi.

Por fim, falarei agora a respeito de Afonjá.

Afonjá nunca foi governante do povo Yorubá. Afonjá foi o Kakanfo, o general do Exército, na cidade iorubá de Ilorin, durante o reinado de Awole e seu sucessor. Afonjá se recusou a reconhecer o novo rei, e convidou os Fulani que foram em seguida, levando uma jihad para o sul, para ajudá-lo contra o rei. Afonjá traiu o povo Yorubá mas não sobreviveu a si mesmo, porque os Fulani, depois de ajudar a derrotar o Alafin também se voltou contra ele. Os próprios Fulani atiraram diversas setas em sua direção e seu corpo foi dilacerado.

A traição do Afonjá, marcou o começo do fim do império Oyo e com ele o declínio da nação yorubá.

A guerra civil eclodiu entre os vários reinos yorubá: Oyo, Ijesa, Ekiti, Ijaiye, Abeokuta e Ibadan. Enquanto isso acontecia, Daomé sobre o oeste e o Borgu no norte também tiveram problemas para posar para os reinos iorubás, até a intervenção dos britânicos e da imposição do domínio colonial.

Aqueles que argumentam que não houve a consciência de uma identidade yorubá comum até o século 19 pode estar se referindo a esses episódios da guerra civil na vida da nação, causados pela TRAIÇÃO DE AFONJÁ.

Mas eles se esquecem que essas pessoas, apesar da guerra civil, compartilham de um sentido de origem comum e da linguagem comum. E é de notar que a chamada paz que lhe foi imposta pelos britânicos não poderia ter durado se não houvesse um sentido de consciência de vir de uma origem comum.

Portanto, todo declínio causado à cultura Yorubá, se deve primordialmente à Traição de Afonjá, que hoje é aqui neste País cultuado como se fosse Orisa, e pior ainda como se fosse uma qualidade ou caminho de Sangò. Inadimissível que ainda hoje, o responsável por todas as guerras civis no território Yorubá seja elevado à categoria de Rei e de Orisa utilizando-se do nome do verdadeiro rei Sango.

É certo também que assim como os Reis, os Traidores também possuem seguidores. E talvez, assim como um dia Afonjá, movido pela inveja, tenha tentado ser visto como um Rei seus seguidores tentem, ainda hoje, fazer com que outras pessoas o sigam, passando a falsa imagem que o traidor é Sango.

Alguns dos seguidores do traidor Afonjá ainda argumentam que o Afonjá deles seria um homônimo. Segundo relatos históricos, o único governante que possuiu homônimo foi Aganjú.

Conforme dito acima, segue agora a relação de todos os Alafins de Oyó:

1. Oranmiyan
2. Ajaka - foi destronado
3. Sango - tornou-se divinizado como o deus do trovão e relâmpago
4. Ajaka - re-instalado
5. Aganju
6. Kori
7. Oluaso
8. Onigbogi - evacuação realizada de Oyo-Ile, provavelmente por volta do
século 16 "Havia 36 outros reis após Onigbogi.
9. Ofiran - construiu a cidade de Shaki
11. Egunoju - fundador do Oyo Igboho
12. Orompoto - especula-se ser uma mulher
13. Ajiboyede -
14. ABIPA - 1570-1580
15.Obalokun - 1580-1600
16. Oluodo - Ele não foi sepultado em BARA (The Royal cemitério, daí o seu nome foi suprimido)
17. Ajagbo - 1600-1658
18.Odaranwu - 1658-1660
19. Kanran - 1660-1665
20. Jayin - (Nomeado o Awuyale primeiro Ijebu Ode) 1655-1670
21. Ayibi - 1678-1690
22. Osiyango - 1690-1698
23. Ojigi - 1698-1732
24. Gbaru - 1732-1738
25. Amuniwaye - 1738-1742
26. Onisile - 1742-1750
27. Labisi - 1750
28. Awonbioju - 1750
29. Agboluaje - (Festival Bere Celebrado) 1750-1772
30. Majeogbe - 1772-1775
31. Abiodun - (Festival Bere Celebrado) 1755-1805
32. AOLE
33. Adebo
34. Maku - 1802-1830
35. Majotu - (Ilorin dimensionada pelos Fulani)
36. Amodo - 1830
37. Oluewu - (queda de Oyo antigo) 1833-1834
38. Abiodun Atiba - (Fundador de Oyo atual, celebrada Bere Festival) 1837-1859
39. Adelu - 1858-1875
40. Adeyemi I - 1875-1905
41. Lawani Agogoija - 1905-1911
42. Ladigbolu - 15 de janeiro de 1911-dezembro 19, 1944
43. Adeniran Adeyemi II - 05 de janeiro de 1945-setembro 20, 1955
44. Bello Gbadegesin - (Ladigbolu II) 20 de julho de 1956-1968
45. Adeyemi III - (Presente Alaafin de Oyo e Chefe de terra iorubá) 14 de janeiro de 1971 até à data vigente.