domingo, 7 de agosto de 2011

E você? O que fez ou faz?

Este final de semana, uma experiência interessante me acometeu e gostaria de compartilhar com todos.

Tive a oportunidade de sentar em uma mesa juntamente com três evangélicos de diferentes segmentos. Todos eles, no passado, eram do candomblé. Todos iniciados, respectivamente nos Orisa Ogun (dois deles) e Osún.

Em determinado momento da conversa, que fluía de forma agradável, inevitavelmente o assunto se voltou para a religião. E por incrível que pareça, após o desconforto inicial, a conversa voltou a ser agradável.

Não é novidade para ninguém a intransigência dos evangélicos em seus posicionamentos contrários ao candomblé, relacionando todas as práticas rituais a oferendas ao demônio.

E pior: afirmam categoricamente que Orisa é o próprio demônio, que acaba possuindo o corpo daquele que não está em estado de graça com Deus, devido à constante prática do pecado.

Interessante que todos eles que me fizeram as afirmativas acima, falavam como se grande propriedade sobre o assunto tivessem. Afinal, são todos ex-macumbeiros. Todos freqüentaram durante anos o candomblé. Todos se deixaram envolver pelas promessas de ganhos fáceis. Todos se deixaram iludir pela beleza das festas e também pelas orgias que acontecem no final dessas mesmas belas festas. Todos se deixaram enganar por tudo aquilo que até hoje acontece (mas somente na casa do vizinho, não é? Rs!)

Bom, pelo pouco que me conhecem, devem estar pensando como pude afirmar acima que a conversa voltou a ser agradável... E por incrível que pareça, voltou sim...

Tive a oportunidade de mostrar para os três evangélicos ex-macumbeiros que a minha realidade não é a realidade que eles conheceram.

Tive a oportunidade de demonstrar que faço parte de uma cultura que eles infelizmente não tiveram a oportunidade de conhecer. Cultura essa que não se assemelha ao candomblé. E sabe porque não se assemelha? Porque a minha cultura é baseada em valores sólidos éticos e morais. Porque na minha casa não há a busca pelo ganho fácil em detrimento do destino de pessoas. Porque na minha cultura há o respeito pelo semelhante. Porque a minha cultura, assim como na religião ou doutrina deles, cremos na existência de um único Deus.

E sabem o que ouvi dos evangélicos ao final da conversa: Deus respeita a cultura!

Para muitos isso pode parecer uma grande perda de tempo. Outros podem afirmar que não se importam com a opinião de quem quer que seja, muito menos dos evangélicos.

Mas eu me importo sim. E sabem por quê? Se analisarmos a situação política atual do Pais em que vivemos, é clara a maciça representação dos evangélicos no setor responsável por criação das leis que regem a vida em sociedade.

Pois bem: se o resgate da cultura não se iniciar imediatamente, o candomblé (e por tabela a minha cultura), além de continuar na marginalização, será, em breve, reduzido à ilegalidade também.

Hoje, se pararmos para analisar a legislação penal, e se uma fiscalização efetiva houvesse, é claro que já poderiam enquadrar as nossas práticas rituais num sem número de infrações penais...

Nessa árdua batalha a minha contribuição foi pequena? Sem dúvida! Mas me sinto reconfortada por ter iniciado uma ação na defesa da minha ancestralidade, ao contrário da maioria, que teria até maior condição de alcançar um público infinitamente maior do que o meu, mas que prefere se esconder atrás da falta de humildade para reconhecer que para vivermos em sociedade, precisamos em primeiro lugar, ser aceitos.

E eu consegui ser aceita! Consegui que respeitassem a minha cultura! E isso me deixa feliz...

E você? O que fez ou está fazendo pela sua religião, pelo seu ancestral?

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