sábado, 27 de agosto de 2011
A Etica e a Moral na Religião Tradicional Africana
Ao contrário do que muitos pensam, a ética e a moral são de importância substancial no pensamento e na vida dos africanos, que são baseadas nos costumes, em leis tradicionais, tabus e tradições de cada um dos povos da África. Deus é visto como o derradeiro sancionador e sustentador da moralidade. O relacionamento humano pelo parentesco e vizinhança é extremamente importante e a ética e moral tradicionais são construídas, largamente, através das relações humanas.
Moralidade pode ser resumida, em Yorùbá, pela palavra Ìwà - caráter. Os Akan de Gana chamam o caráter de Suban. Caráter é a essência da ética africana e sobre ele se estabelece a vida de uma pessoa. Deus exige que o homem seja puro eticamente. Deus é o buscador de corações, que a tudo vê e sabe e cujo julgamento é correto e inevitável. Deus julga os homens por seu comportamento aqui e agora, bem como no porvir. Dessa forma a paz na vida após a morte é decidida de acordo com a moral exercida, pelo ser humano, sobre a terra. Mau comportamento pode destruir o destino de uma pessoa, enquanto bom caráter é uma armadura suficiente contra o mal e a desgraça.
Os costumes regulam o que deve e o que não deve ser feito. De acordo com Mbiti: "Roubar, agredir as pessoas, mostrar desrespeito aos mais velhos, mentir, praticar feitiçaria, dormir com a mulher de alguém, matar, caluniar as pessoas e assim por diante são consideradas grandes ofensas, que podem ser severamente punidas pela sociedade através do degredo, indenização, pagamento de multas, espancamento, apedrejamento e até mesmo a morte. Por outro lado, a bondade, a cortesia, a generosidade, a hospitalidade, o respeito, a diligência, a frugalidade e o trabalho duro são aspectos da moral ensinadas às crianças em várias comunidade africanas, como princípio básico de vida." (Mbiti, John. Introduction to African Religion. London:Heinemann.
Os Yorùbá e, na verdade, os africanos têm a moralidade como a essência que torna a vida alegre e agradável. Para os Yorùbá, segundo Bólájí Ìdòwú, o bom caráter (ìwà rere) deve ser a mola mestra na vida das pessoas. De fato é isso que distingue o ser humano dos animais. Quando os Yorùbá dizem de alguém O şe Ènìyàn (os atos da pessoa), querem dizer que ela se comporta como deve, ou seja, ela mostra que sua vida e suas relações com os outros são regrados pelas suas melhores características. A descrição contrária kìí şe ènìyàn, n şe lof’awon ènìyàn bora (Ele não é uma pessoa, ele assumiu a pele de uma pessoa). Isso significa que a pessoa é socialmente indigna; em consequência de sua característica, não está apta a ser chamada de pessoa, embora tenha a aparência de uma.
Em geral, deve-se dar ênfase a que Deus, as divindades e os antepassados requerem um bom comportamento dos seres humanos.
Mas podemos perguntar por que as pessoas que seguem a Religião Tradicional Africana, assim como os seguidores de outras religiões (cristianismo, islamismo, judaísmo, hinduísmo etc), praticam atos imorais? A resposta é simples: hoje, muitas pessoas professam uma determinada religião, porém deixam de agir de acordo com os princípios e os ditames dessa mesma religião, que é a principal causa para os atos de corrupção, violação dos Direitos Humanos, péssimas práticas eleitorais, etnicismo, bem como outras práticas imorais e aéticas.
No entanto, esses problemas não são insuperáveis, basta que as pessoas façam valer aquilo que aprenderam e unam a religião à moralidade, que são coisas indissociáveis. Um adágio Yorùbá diz Ìwà l’èsìn, Èsìn ni Ìwà (religião é uma exibição de moralidade, moralidade é o maior ato de adoração). Por isso é que os adeptos das diversas religiões devem saber e acatar que nossos atos de adoração só se tornarão dignos e significativos ao Criador, se eles forem acompanhados pela ética e pela moral.
Texto de Mário Filho
Bacharel em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública, e Ciências da Religião (ambas pela PUC/SP)
domingo, 7 de agosto de 2011
E você? O que fez ou faz?
Este final de semana, uma experiência interessante me acometeu e gostaria de compartilhar com todos.
Tive a oportunidade de sentar em uma mesa juntamente com três evangélicos de diferentes segmentos. Todos eles, no passado, eram do candomblé. Todos iniciados, respectivamente nos Orisa Ogun (dois deles) e Osún.
Em determinado momento da conversa, que fluía de forma agradável, inevitavelmente o assunto se voltou para a religião. E por incrível que pareça, após o desconforto inicial, a conversa voltou a ser agradável.
Não é novidade para ninguém a intransigência dos evangélicos em seus posicionamentos contrários ao candomblé, relacionando todas as práticas rituais a oferendas ao demônio.
E pior: afirmam categoricamente que Orisa é o próprio demônio, que acaba possuindo o corpo daquele que não está em estado de graça com Deus, devido à constante prática do pecado.
Interessante que todos eles que me fizeram as afirmativas acima, falavam como se grande propriedade sobre o assunto tivessem. Afinal, são todos ex-macumbeiros. Todos freqüentaram durante anos o candomblé. Todos se deixaram envolver pelas promessas de ganhos fáceis. Todos se deixaram iludir pela beleza das festas e também pelas orgias que acontecem no final dessas mesmas belas festas. Todos se deixaram enganar por tudo aquilo que até hoje acontece (mas somente na casa do vizinho, não é? Rs!)
Bom, pelo pouco que me conhecem, devem estar pensando como pude afirmar acima que a conversa voltou a ser agradável... E por incrível que pareça, voltou sim...
Tive a oportunidade de mostrar para os três evangélicos ex-macumbeiros que a minha realidade não é a realidade que eles conheceram.
Tive a oportunidade de demonstrar que faço parte de uma cultura que eles infelizmente não tiveram a oportunidade de conhecer. Cultura essa que não se assemelha ao candomblé. E sabe porque não se assemelha? Porque a minha cultura é baseada em valores sólidos éticos e morais. Porque na minha casa não há a busca pelo ganho fácil em detrimento do destino de pessoas. Porque na minha cultura há o respeito pelo semelhante. Porque a minha cultura, assim como na religião ou doutrina deles, cremos na existência de um único Deus.
E sabem o que ouvi dos evangélicos ao final da conversa: Deus respeita a cultura!
Para muitos isso pode parecer uma grande perda de tempo. Outros podem afirmar que não se importam com a opinião de quem quer que seja, muito menos dos evangélicos.
Mas eu me importo sim. E sabem por quê? Se analisarmos a situação política atual do Pais em que vivemos, é clara a maciça representação dos evangélicos no setor responsável por criação das leis que regem a vida em sociedade.
Pois bem: se o resgate da cultura não se iniciar imediatamente, o candomblé (e por tabela a minha cultura), além de continuar na marginalização, será, em breve, reduzido à ilegalidade também.
Hoje, se pararmos para analisar a legislação penal, e se uma fiscalização efetiva houvesse, é claro que já poderiam enquadrar as nossas práticas rituais num sem número de infrações penais...
Nessa árdua batalha a minha contribuição foi pequena? Sem dúvida! Mas me sinto reconfortada por ter iniciado uma ação na defesa da minha ancestralidade, ao contrário da maioria, que teria até maior condição de alcançar um público infinitamente maior do que o meu, mas que prefere se esconder atrás da falta de humildade para reconhecer que para vivermos em sociedade, precisamos em primeiro lugar, ser aceitos.
E eu consegui ser aceita! Consegui que respeitassem a minha cultura! E isso me deixa feliz...
E você? O que fez ou está fazendo pela sua religião, pelo seu ancestral?
Tive a oportunidade de sentar em uma mesa juntamente com três evangélicos de diferentes segmentos. Todos eles, no passado, eram do candomblé. Todos iniciados, respectivamente nos Orisa Ogun (dois deles) e Osún.
Em determinado momento da conversa, que fluía de forma agradável, inevitavelmente o assunto se voltou para a religião. E por incrível que pareça, após o desconforto inicial, a conversa voltou a ser agradável.
Não é novidade para ninguém a intransigência dos evangélicos em seus posicionamentos contrários ao candomblé, relacionando todas as práticas rituais a oferendas ao demônio.
E pior: afirmam categoricamente que Orisa é o próprio demônio, que acaba possuindo o corpo daquele que não está em estado de graça com Deus, devido à constante prática do pecado.
Interessante que todos eles que me fizeram as afirmativas acima, falavam como se grande propriedade sobre o assunto tivessem. Afinal, são todos ex-macumbeiros. Todos freqüentaram durante anos o candomblé. Todos se deixaram envolver pelas promessas de ganhos fáceis. Todos se deixaram iludir pela beleza das festas e também pelas orgias que acontecem no final dessas mesmas belas festas. Todos se deixaram enganar por tudo aquilo que até hoje acontece (mas somente na casa do vizinho, não é? Rs!)
Bom, pelo pouco que me conhecem, devem estar pensando como pude afirmar acima que a conversa voltou a ser agradável... E por incrível que pareça, voltou sim...
Tive a oportunidade de mostrar para os três evangélicos ex-macumbeiros que a minha realidade não é a realidade que eles conheceram.
Tive a oportunidade de demonstrar que faço parte de uma cultura que eles infelizmente não tiveram a oportunidade de conhecer. Cultura essa que não se assemelha ao candomblé. E sabe porque não se assemelha? Porque a minha cultura é baseada em valores sólidos éticos e morais. Porque na minha casa não há a busca pelo ganho fácil em detrimento do destino de pessoas. Porque na minha cultura há o respeito pelo semelhante. Porque a minha cultura, assim como na religião ou doutrina deles, cremos na existência de um único Deus.
E sabem o que ouvi dos evangélicos ao final da conversa: Deus respeita a cultura!
Para muitos isso pode parecer uma grande perda de tempo. Outros podem afirmar que não se importam com a opinião de quem quer que seja, muito menos dos evangélicos.
Mas eu me importo sim. E sabem por quê? Se analisarmos a situação política atual do Pais em que vivemos, é clara a maciça representação dos evangélicos no setor responsável por criação das leis que regem a vida em sociedade.
Pois bem: se o resgate da cultura não se iniciar imediatamente, o candomblé (e por tabela a minha cultura), além de continuar na marginalização, será, em breve, reduzido à ilegalidade também.
Hoje, se pararmos para analisar a legislação penal, e se uma fiscalização efetiva houvesse, é claro que já poderiam enquadrar as nossas práticas rituais num sem número de infrações penais...
Nessa árdua batalha a minha contribuição foi pequena? Sem dúvida! Mas me sinto reconfortada por ter iniciado uma ação na defesa da minha ancestralidade, ao contrário da maioria, que teria até maior condição de alcançar um público infinitamente maior do que o meu, mas que prefere se esconder atrás da falta de humildade para reconhecer que para vivermos em sociedade, precisamos em primeiro lugar, ser aceitos.
E eu consegui ser aceita! Consegui que respeitassem a minha cultura! E isso me deixa feliz...
E você? O que fez ou está fazendo pela sua religião, pelo seu ancestral?
Gírias Afro-Brasileiras (Parte 01)
ORISA META META
Comumente ouvimos pessoas que fazem parte de religiões afro-brasileiras, utilizarem termos que não encontram significado no idioma inerente às mais diversas culturas de Orisa, Vodun e/ou Nkisse.
Uma das mais comuns é a expressão “meta-meta”.
Atribuem a essa expressão, basicamente três significados: Orisa meta-meta seria aquele que é metade alguma coisa e metade outra alguma coisa, formando, então um terceiro elemento. Exemplo 1: Osún Opara = metade Osún, metade Ogun; Exemplo 2: Oyá Onira = metade Oyá, metade Osún.
O segundo significado atribuído é aquele em que afirma que um Orisa seria metade aboro e metade iyagbá. Exemplo 3: Logun Edé: seria meta meta, por ser a junção de Osún com Osossi, chegando alguns a colocar o coitadinho vestido metade de homem, metade mulher!
A terceira e última vertente mais conhecida é aquela que afirma que meta-meta é aquele Orisa que é seis meses macho, seis meses fêmea. Essa versão é geralmente utilizada para Osumarè,Logun Edé e Osaniyn...
Bom... meta, em Yorubá possui como significado a palavra “três”. Não tem relação com a palavra metade, ou meio...
É certo também, que a principal característica da cultura afro e afro-brasileira é a sua transmissão baseada na oralidade.
Mas a coerência é necessidade básica.
Não há possibilidade de um ancestral ser meio alguma coisa. Não há possibilidade de fusão de dois ancestrais para a formação de um terceiro. E sinceramente, não acredito que alguém ainda pense na possibilidade de um ancestral ser meio macho, meio fêmea...
Comumente ouvimos pessoas que fazem parte de religiões afro-brasileiras, utilizarem termos que não encontram significado no idioma inerente às mais diversas culturas de Orisa, Vodun e/ou Nkisse.
Uma das mais comuns é a expressão “meta-meta”.
Atribuem a essa expressão, basicamente três significados: Orisa meta-meta seria aquele que é metade alguma coisa e metade outra alguma coisa, formando, então um terceiro elemento. Exemplo 1: Osún Opara = metade Osún, metade Ogun; Exemplo 2: Oyá Onira = metade Oyá, metade Osún.
O segundo significado atribuído é aquele em que afirma que um Orisa seria metade aboro e metade iyagbá. Exemplo 3: Logun Edé: seria meta meta, por ser a junção de Osún com Osossi, chegando alguns a colocar o coitadinho vestido metade de homem, metade mulher!
A terceira e última vertente mais conhecida é aquela que afirma que meta-meta é aquele Orisa que é seis meses macho, seis meses fêmea. Essa versão é geralmente utilizada para Osumarè,Logun Edé e Osaniyn...
Bom... meta, em Yorubá possui como significado a palavra “três”. Não tem relação com a palavra metade, ou meio...
É certo também, que a principal característica da cultura afro e afro-brasileira é a sua transmissão baseada na oralidade.
Mas a coerência é necessidade básica.
Não há possibilidade de um ancestral ser meio alguma coisa. Não há possibilidade de fusão de dois ancestrais para a formação de um terceiro. E sinceramente, não acredito que alguém ainda pense na possibilidade de um ancestral ser meio macho, meio fêmea...
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