sábado, 25 de junho de 2011

Do Império ao Candomblé


A cultura yorubá possui grande riqueza cultural, englobando aspectos religiosos, culinários, musicais, de expressão corporal, vestimentas, etc... E toda essa diversidade influenciou em muito a religião brasileira denominada candomblé, com a vinda do povo Yorubá para o Brasil, na condição inicial de escravos.

Falarei hoje um pouquinho a respeito das vestimentas utilizadas pelo povo yorubá e as diferenças com relação ao candomblé.

A cultura tradicional Yorubá é pautada pela simplicidade e rusticidade. Durante o culto à ancestralidade o melhor é oferecido, mas sempre preservando as características culturais daquele povo, já que sua cultura é sua maior riqueza.



Como vemos acima, principalmente as mulheres são detentoras de grande vaidade, mas sempre buscando ressaltar os elementos inerentes a sua cultura.

O mesmo não acontece com o candomblé. Não existe no candomblé (enquanto religião brasileira) uma identidade cultural brasileira. No culto a Orisa no candomblé, são utilizadas vestimentas que são oriundas da cultura européia, utilizadas por volta do século XVII/XVIII.






Como podemos observar pelas fotos acima,todos os modelos de roupas (vulgarmente chamados de baianas) utilizados no candomblé são inspirados nos modelos das vestimentas européias...

Outro exemplo da influência européia no candomblé é no que se refere às paramentas de Orisa... vejam alguns exemplos:

Ade Osun candomblé

Coroa do império portugues

Coroa Sango candomblé

Coroa imperador

Utensílio do império

Utensílio do império

O que às vezes me pergunto é porque o candomblé se utiliza de elementos culturais justamente do povo europeu que escravizou nossos antepassados... antepassados esses que foram responsáveis pela religião que hoje o povo de candomblé professa.

E isso sem citar as fantasias alegóricas que hoje vemos expostas na internet.

É certo que todos querem dar o melhor ao Orisa que cultua... mas o melhor é vesti-los como os seus algozes? O melhor é vesti-los como se vestiam quem sub-julgou todo um povo, todos seus descendentes?

A cultura de Orisa, no meu ponto de vista, precisa ser resgatada em todos os seus aspectos. Somente esse resgate cultural será capaz de manter viva a história de todo um povo, não apenas na memória de alguns, mas sim no cotidiano de cada um de nós.

domingo, 19 de junho de 2011

A beira do caos!

Desde o dia em que decidi criar este espaço para a derrubada de mitos inerentes a Orisa, tive em mente que assuntos não faltariam... São tantas as distorções cometidas no candomblé, que fiquei sem saber por onde começar... mas comecei.

Agora surge um novo obstáculo: como continuar? E essa dúvida, justifico por um único motivo: as distorções são tantas e tamanhas, que não sei nem mais o que falar, ou a que me dedicar.

Como é de conhecimento de todos, a cultura de Orisa, data de muitos e muitos anos e retrata toda uma crença de um povo. Trazida para nosso País por descendentes africanos, todo o conhecimento vêm paulatinamente sendo perdido... e pior, passou a ser deturpado.

Com a instituição do candomblé como religião, alguns benefícios (quais, ainda não sei) dizem que foram obtidos... Será? Todas as religiões são redutos de pessoas escravizadas por uma crença baseada apenas na fé cega.

Aqueles capazes de arrebanhar um maior número de seguidores, passa a fazer parte da classe dominante, influenciados pela possibilidade única e simples de ganhar dinheiro em cima da fé das pessoas. E isso também hoje acontece com Orisa, que se reduziu a apenas uma religião brasileira. Mas Orisa é muito mais que apenas religião.

Com a facilidade de obter conhecimento em função da rapidez com que podemos hoje trocar informações, pensei que ficaria mais fácil... ledo engano! O que vejo é a maior facilidade de pessoas enganarem seus semelhantes, com falsas promessas, invenções e utilização de todas as formas possíveis na busca desenfreada pelo financeiro.

O cúmulo dos cúmulos encontramos agora todos os dias na internet. Pessoas se dizendo sacerdotes de uma cultura tão rica como a de Ifá prometendo absurdos conseguidos com a simples oferenda de um cabrito e, é claro, o pagamento pelo "trabalho".

A nova moda agora é a oferta para pais e mães de santo e egbomi de assentamentos de Odu para Orisa... prometem assentar Odu dentro do Igbá de Orisa com apenas um cabrito! Gente! Fala sério, né?

Até onde será permitido que essa palhaçada continue? Até quando pessoas vão continuar utilizando o nome de Ifá e de Orisa desta maneira? Até quando as pessoas vão continuar a ser enganadas? Até quando as pessoas continuarão a ser iludidas?

Isso sem contar nações que cultuam mais de trinta "qualidades" de Sango,por exemplo. Aí pegamos as ditas qualidades e vemos que muitas delas não passam de Orunkó dados a um único Orisa! E tem gente que pega todas essas bobagens e encaram como se fosse a verdade absoluta!

Variações de cultura é perfeitamente possível! E essa variedade é que torna a cultura de Orisa tão rica! Inadmissível são as invenções, a busca pelo dinheiro fácil, baseada na fé das pessoas, a falta de comprometimento com o destino alheio, a falta de caráter, o exibicionismo que tomou conta dos locais de culto a Orisa neste País.

Falar o quê? Pensar o quê? Fazer o quê?

O engraçado é que estas situações, embora ocorram em todos os locais, somente são apontadas quando acontece no nosso vizinho... Aí me pergunto? Como ignoram se todos se dizem praticantes de uma única religião? Todos não se dizem de candomblé? Então não importa se é na sua porta ou na porta ao lado! É na religião de todos vocês e na minha cultura!

Não sei se continuarei a demonstrar as deturpações, se divulgarei a minha cultura, se farei os dois ou se não falarei sobre algo que seja relevante... A única coisa que tenho certeza é que está tudo cada vez pior, praticamente chegando ao caos...

domingo, 12 de junho de 2011

Sango: Eborá Único e Soberano!

Voltando ao tema referente às qualidades de Orisa que são cultuados no candomblé brasileiro, falarei hoje a respeito de Sango quebrando alguns mitos com dados históricos referentes a Ajaká, Aganjú, Gbarú e Afonjá.

Sango, filho de Oranmiyan e Torosi, foi o quarto Alafin dos Yorubás e o único Eborá a ser divinizado e elevado à categoria de Orisa. Detentor de grande conhecimento de magias, utilizou desta habilidade para impor respeito aos seus súditos.

Sango reinou pelo período de 07 anos, sendo que a totalidade deste período foi marcada pela sua inquietude. Após deixar o reinado, foi sucedido por seu irmão Ajaká.

Ajaká, também filho de Oranmiyan não foi elevado à categoria de Orisa. Não foi divinizado. Antes da subida ao trono de Sango, Ajaká, por ser mais velho, teria sido coroado rei. Todavia, em função de seu temperamento dócil, foi retirado do poder, já que perdeu as forças sob seus súditos. Após Sango deixar o trono, Ajaká voltou ao governo, desta vez mais rigido e permaneceu no Poder.

Logo, temos como primeira conclusão que Ajaká era IRMÃO de Sango e não uma qualidade deste Orisa.

Com a saída de Ajaká do poder e como Sango não havia deixado descendentes, o Poder foi tomado por Aganjú, FILHO DE AJAKÁ e, portanto, SOBRINHO de Sango.

O reinado de Aganjú foi longo e próspero. Embelezou todo o reino e tinha a facilidade de domar animais selvagens. O fim de seu reinado se deu após uma batalha com um homônimo seu, que lutou para conseguir a mão da filha do Governante Aganjú.

Como segunda conclusão temos então que Aganjú não é uma qualidade ou caminho de Sango. Aganjú é simplesmente sobrinho de Sango e também não foi elevado à categoria de Orisa.

Após a queda de Aganjú do poder, seguiu-se o reinado de outros 16 Alafins, cuja relação poderá ser encontrada no final deste texto.

Já no ano de 1732, o que é muito recente em se falando de cultura Yorubá, encontramos o reinado de Gbaru. Seu reinado durou até o ano de 1738. Da mesma forma que os demais sucessores do trono após Sango, não há qualquer relato a respeito de que Gbaru foi elevado à categoria de Orisa. Não é portanto, qualidade ou caminho de Sango e pior ainda, nem seu parente foi.

Por fim, falarei agora a respeito de Afonjá.

Afonjá nunca foi governante do povo Yorubá. Afonjá foi o Kakanfo, o general do Exército, na cidade iorubá de Ilorin, durante o reinado de Awole e seu sucessor. Afonjá se recusou a reconhecer o novo rei, e convidou os Fulani que foram em seguida, levando uma jihad para o sul, para ajudá-lo contra o rei. Afonjá traiu o povo Yorubá mas não sobreviveu a si mesmo, porque os Fulani, depois de ajudar a derrotar o Alafin também se voltou contra ele. Os próprios Fulani atiraram diversas setas em sua direção e seu corpo foi dilacerado.

A traição do Afonjá, marcou o começo do fim do império Oyo e com ele o declínio da nação yorubá.

A guerra civil eclodiu entre os vários reinos yorubá: Oyo, Ijesa, Ekiti, Ijaiye, Abeokuta e Ibadan. Enquanto isso acontecia, Daomé sobre o oeste e o Borgu no norte também tiveram problemas para posar para os reinos iorubás, até a intervenção dos britânicos e da imposição do domínio colonial.

Aqueles que argumentam que não houve a consciência de uma identidade yorubá comum até o século 19 pode estar se referindo a esses episódios da guerra civil na vida da nação, causados pela TRAIÇÃO DE AFONJÁ.

Mas eles se esquecem que essas pessoas, apesar da guerra civil, compartilham de um sentido de origem comum e da linguagem comum. E é de notar que a chamada paz que lhe foi imposta pelos britânicos não poderia ter durado se não houvesse um sentido de consciência de vir de uma origem comum.

Portanto, todo declínio causado à cultura Yorubá, se deve primordialmente à Traição de Afonjá, que hoje é aqui neste País cultuado como se fosse Orisa, e pior ainda como se fosse uma qualidade ou caminho de Sangò. Inadimissível que ainda hoje, o responsável por todas as guerras civis no território Yorubá seja elevado à categoria de Rei e de Orisa utilizando-se do nome do verdadeiro rei Sango.

É certo também que assim como os Reis, os Traidores também possuem seguidores. E talvez, assim como um dia Afonjá, movido pela inveja, tenha tentado ser visto como um Rei seus seguidores tentem, ainda hoje, fazer com que outras pessoas o sigam, passando a falsa imagem que o traidor é Sango.

Alguns dos seguidores do traidor Afonjá ainda argumentam que o Afonjá deles seria um homônimo. Segundo relatos históricos, o único governante que possuiu homônimo foi Aganjú.

Conforme dito acima, segue agora a relação de todos os Alafins de Oyó:

1. Oranmiyan
2. Ajaka - foi destronado
3. Sango - tornou-se divinizado como o deus do trovão e relâmpago
4. Ajaka - re-instalado
5. Aganju
6. Kori
7. Oluaso
8. Onigbogi - evacuação realizada de Oyo-Ile, provavelmente por volta do
século 16 "Havia 36 outros reis após Onigbogi.
9. Ofiran - construiu a cidade de Shaki
11. Egunoju - fundador do Oyo Igboho
12. Orompoto - especula-se ser uma mulher
13. Ajiboyede -
14. ABIPA - 1570-1580
15.Obalokun - 1580-1600
16. Oluodo - Ele não foi sepultado em BARA (The Royal cemitério, daí o seu nome foi suprimido)
17. Ajagbo - 1600-1658
18.Odaranwu - 1658-1660
19. Kanran - 1660-1665
20. Jayin - (Nomeado o Awuyale primeiro Ijebu Ode) 1655-1670
21. Ayibi - 1678-1690
22. Osiyango - 1690-1698
23. Ojigi - 1698-1732
24. Gbaru - 1732-1738
25. Amuniwaye - 1738-1742
26. Onisile - 1742-1750
27. Labisi - 1750
28. Awonbioju - 1750
29. Agboluaje - (Festival Bere Celebrado) 1750-1772
30. Majeogbe - 1772-1775
31. Abiodun - (Festival Bere Celebrado) 1755-1805
32. AOLE
33. Adebo
34. Maku - 1802-1830
35. Majotu - (Ilorin dimensionada pelos Fulani)
36. Amodo - 1830
37. Oluewu - (queda de Oyo antigo) 1833-1834
38. Abiodun Atiba - (Fundador de Oyo atual, celebrada Bere Festival) 1837-1859
39. Adelu - 1858-1875
40. Adeyemi I - 1875-1905
41. Lawani Agogoija - 1905-1911
42. Ladigbolu - 15 de janeiro de 1911-dezembro 19, 1944
43. Adeniran Adeyemi II - 05 de janeiro de 1945-setembro 20, 1955
44. Bello Gbadegesin - (Ladigbolu II) 20 de julho de 1956-1968
45. Adeyemi III - (Presente Alaafin de Oyo e Chefe de terra iorubá) 14 de janeiro de 1971 até à data vigente.

domingo, 5 de junho de 2011

Òrànmiyàn

Òpá Òrànmíyàn, em Ilê-Ifé






Após grandes vitórias, Òrànmíyàn torna-se o braço direito de seu pai em Ilê-Ifê, pois seus outros irmãos foram povoar regiões distantes, menos Obàlùfan Ògbógbódirin. Odùduwà ordena então que Òrànmíyàn conquiste terras ao norte de Ifé, mas Òrànmíyàn não consegue cumprir a tarefa e sai derrotado e, com vergonha de encarar seu pai, não volta mais a Ifé, com isso funda uma nova cidade e lhe dá o nome de Oyó, tornando-se o primeiro Oba Aláàfin de Oyó.

Casado com Morèmi, uma bela mortal ,nativa de Òfà ,que se tornou mais tarde uma heroína em Ilê-Ifé, da qual tem um filho, que recebe o nome de Ajaká. Após algum tempo, Òrànmíyàn investe em novas conquistas e volta a guerrear contra a Nação dos Tapas, onde havia sido derrotado, mas desta vez consegue uma grande vitória sobre Elémpe, na época rei dos Tapas. Por sua derrota, Elémpe entrega-lhe sua filha Torosí, para que se case com ele. Retornando a Oyó, Òrànmíyàn casa-se com Torosí e com ela tem um filho, chamado de Sàngó, um mortal, nascido de uma mãe mortal e um pai semideus, portanto com ascendentes divinos por parte de pai.

Após este período com inúmeras vitórias, a cidade de Oyó torna-se um poderoso império, Òrànmíyàn, prestigiado e redimido de sua vergonha, volta para Ilê-Ifé, deixando em seu lugar, em Oyó, o príncipe coroado, seu filho Ajaká, que torna-se o segundo Aláàfin de Oyó.

Em uma de suas conquistas, a da cidade de Benin, anterior a fundação de Oyó, Òrànmíyàn termina com a dinastia de Ogìso, o então rei, expulsando-o e assumindo o trono, tornando-se o primeiro Obabínín, e inicia sua dinastia tendo um filho, chamado Èwékà, com uma mulher do local. Antes de deixar a cidade, ele torna Èwékà como seu sucessor no trono do Benin. (Atual cidade na Nigéria, antigo Reino do Benin, não confundir com a República do Benin, antigo país chamado Daomé.)

Durante sua longa ausência em Ilê-Ifé, Obàlùfan Ògbógbódirin ,seu irmão mais velho, se tornou o segundo Óòni de Ifé, após o reinado de Odùduwà. Quando Obàlùfan morreu, e ninguém sabia do paradeiro de Òrànmíyàn, o povo de Ifé aclamou Obàlùfan Aláyémore como sucessor direto de seu pai.

Quando Òrànmíyàn chega em Ifé, Obàlùfan Aláyémore já reinava como o terceiro Óòni de Ifé, mas com um fraco reinado. Enfurecido com o povo de Ifé que haviam aclamado Aláyémore, e que o tinham chamado para combater possíveis inimigos, o poderoso guerreiro colérico ,comete varias atrocidades e só para quando uma anciã grita desesperada que ele está destruindo seus "próprios filhos", o seu povo. Atônito, ele finca no chão seu asà (escudo) que imediatamente se transforma em uma enorme laje de pedra ,num lugar hoje chamado de "Ìta Alásà" ,e decide ir embora e nunca mais voltar à Ifé.

Quando rumava para fora dos arredores de Ifé ,em Mòpá, foi interceptado pelo povo que o saudavam como Óòni de Ifé e suplicavam por sua volta. Ele então satisfeito e envaidecido ,atende ao povo e finca no chão seu òpá (seu bastão de guerreiro) transformando-o em um monólito de granito (ver foto : Òpá Òrànmíyàn) selando assim o acordo com o povo e volta em uma procissão triunfante ao palácio de Ifé.

Sabendo disso, Obàlùfan Aláyémore abandona o palácio e se exila na cidade de Ìlárá. Òrànmíyàn ascende ao trono e se torna o 4ª Óòni de Ifé até sua morte. Obàlùfan Aláyémore, retorna do exílio e reassume como o 5ª Óòni de Ifé e reina deste vez, com sucesso até a sua morte.

Orisa Orì


 A palavra Yorubá orì tem diversos significados, mas o mais comumente usado é aquele que o define como cabeça física, símbolo da cabeça interior (orì inù). Trataremos primordialmente do tema Orì inù.

O orì é um orisà individual, que está conosco e nos assiste a todo o momento.

Ele está sempre com a atenção voltada para tornar real tudo que for bom para o homem, trazendo a felicidade.

Isso deixa claro que quando não obtemos algo é justamente porque o nosso Orì não permite, por saber que não vai ser bom para nós no futuro, pois ele tem influência direta sobre cada um de nós.

Por estar ligado a nós, mais que nossos próprios orisàs, ele conhece nossas necessidades em nossa trajetória no mundo natural, nos acertos e nos erros de cada um de nós, tendo a condição de indicar o caminho certo a ser percorrido.

Como o Orì é nosso orisà pessoal, deve ser o primeiro a ser cultuado e louvado antes de qualquer outro porque ele é a essência real do ser.

Para se ter à benção do orì é necessário louvá-lo e cultuá-lo e acreditar em nosso próprio destino pessoal, aceitando fracassos e sucessos.

Tudo depende do destino pessoal que cada um traz na sua trajetória do mundo sobrenatural para o mundo natural.

Este destino pessoal é escolhido por nós, antes mesmo de nosso nascimento.

A função primordial do Orì é determinar a nossa fortuna ou atribulações de vida, tudo coordenado, manipulado pelo Odù responsável pelo destino de cada ser humano.

É importante salientar que alguns têm melhor sorte na escolha de seu destino, ou de seu Orì.

Todavia, é importante também ressaltar que tudo aquilo que desejamos alcançar será fruto de muito trabalho árduo e individual, novamente devendo ser citada aqui a responsabilidade de cada um sobre o seu próprio destino.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Qualidades de Orisa. Como ser possível?

Como já dito anteriormente, minhas postagens não têm, por enquanto, a intenção de trazer dados históricos ou mesmo fundamentos mantidos por muito tempo em segredo, pelos detentores do conhecimento. A intenção primordial, neste momento, é trazer à reflexão, todos aqueles que se dedicam arduamente ao culto à Orisa, demonstrando, simplesmente que é fundamental o constante questionamento sobre assuntos primários, mas que servem de base para todo o aprendizado futuro e sistemático de uma cultura transmitida pela oralidade.

Hoje, verificando algumas postagens em comunidades de candomblé, me deparei com a seguinte afirmação: " EM CASAS EM QUE SE CULTUAM QUALIDADES DE ORISA, EXISTE MAIOR QUANTIDADE DE FUNDAMENTOS".

Muito me espanta tal afirmação. Acredito ser do conhecimento da maioria das pessoas que o culto a Orisa é antes de tudo, culto à ancestralidade. E cada um dos Orisa possui a sua individualidade. Individualidade entendida como o fato de ser único. E como ser único, como falar em qualidades?

Alguns mais apressados poderiam falar que não se trata de qualidades, mas sim de caminhos... Mas aí me pergunto: como cultuar apenas um caminho? Como determinar que um Orisa (ser infinitamente superior a nós humanos) se apresente na vida de uma pessoa com apenas uma característica? Apenas para argumentar - já que não acredito ser possível iniciar uma pessoa a um culto de uma única característica de certo Orisa -  se em determinando momento da vida do iniciado ele precise de mais de uma característica de determinado Orisa, o que fazer? Seria necessária uma nova iniciação, em um outro caminho?

Acredito que grande confusão se fez pelo fato de que pessoas de diferentes regiões sempre cultuaram o mesmo Orisa, atribuindo a cada um deles, uma saudação diferente, um elemento a mais para presentear determinado ancestral, etc... o que fez com que simples observadores entendessem que eram diferentes Orisa (Exemplo: diferentes Ogun, etc...) e passassem a divulgar tal observação de cunho estritamente pessoal como sendo a verdade absoluta.

O grande problema hoje da disseminação do conhecimento se refere à estrutura de muitas casas de candomblé que compraram essa idéia equivocada e agora relutam em reconhecer o engano, pelo pavor de verem as suas estruturas abaladas.

É como sempre costumo dizer: a cultura de Orisa é simples e baseada na lógica e coerência. Foram as pessoas que, buscando explicar o que para eles não possuía explicação, passaram a inventar situações que com o passar do tempo acabaram por se solidificar.

E fácil constatar isso: pessoas hoje antigas de candomblé não possuem em suas identificações as qualidades de seus Orisa, não é? E por favor não venham com a explicação de que não falam a dita "qualidade" por ser segredo ou por medo de magia alheia...

Lembrem-se: Orisa é lógica. Orisa é coerência. Orisa é conhecimento. Orisa é sabedoria.

sábado, 7 de maio de 2011

Ainda não é o momento! A resposta mais prática!

Quem é que, pertencendo às gerações recentes do candomblé brasileiro nunca ouviu essa resposta de seus mais velhos?

E as justificativas são sempre as mesmas: você ainda é abian; você ainda é muito novo de santo; não ensinamos certas coisas a quem nasceu agora; não falamos sobre determinados assuntos com crianças... Mas tenho certeza também que nenhuma destas respostas, embora muitas vezes recepcionadas, convencem a maioria. Isso sem contar a repreensão dos mais velhos, afirmando que aqueles que perguntam demais acabam por nunca ter acesso ao conhecimento.

Tal repreensão é no mínimo paradoxal, já que se a cultura de Orisa é transmitida praticamente pela oralidade,   como obter respostas sem questionamentos?

Resta apenas para a maioria, aguardar se tornar um Egbonmi, para ter acesso às tão esperadas respostas...

Certo? Não... quem pensa assim e tem essa ilusão, aguarde para a maior decepção de sua existência! E não espero aqui que as pessoas acreditem no que eu digo. Aguardem apenas e confiram pessoalmente! O máximo que aprenderão em mesas e rodinhas de Egbonmi é falar mal da vida alheia, comentar sobre outros Egbonmi de outras casas e falar mal dos frequentadores da casa que são menos que eles ainda e que devem lhes servirem de empregados! E sabem por quê? Simplesmente porque os Egbonmi de hoje, são os abians e yawòs de ontem... que como vocês também não tem acesso ao conhecimento. Logo, chegam à "maioridade" sem qualquer conteúdo!

E o que é o mais alarmante: esses mesmos Egbonmi serão zeladores e zeladoras de futuros abians e iyawòs... E quando questionados por seus seguidores, o que terão para responder? "AINDA NÃO É O MOMENTO! você é iyawò muito novo ainda! não passa de um abian! E repetirão a repreensão que no passado os fizeram calar: se perguntar demais, jamais obterá conhecimento!

E tudo isso vira um grande círculo vicioso!

Mas o importante disso tudo é todos saberem que se Eledunmarè nos deu um cérebro dotado de inteligência é porque devemos usar essa inteligência! Se temos capacidade de aprendizado é porque nos pertence o direito de aprender sempre! Se entregamos o nosso destino nas mãos de uma pessoa, devemos obter respostas às nossas dúvidas! Orisa não comporta uma fé cega! Na cultura de Orisa éimprescindível o conhecimento. Nenhuma cultura sobrevive a simples repetição de atos, sem saber o porque de tal repetição!

Espero sinceramente que todos aqueles que ainda não perderam a capacidade de raciocínio passem a refletir sobre o que esperam de uma cultura que escolhem para seguir. Reflitam sobre a necessidade de submissão absoluta a respostas sem conteúdo! Reflitam sobre o que esperam se tornar amanhã! Pois somente com um presente produtivo é que poderemos colher um futuro próspero e de realizações!

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ogans e Ekeji - Iniciar ou Confirmar?

Sem ter a pretensão de apontar como certo ou errado o procedimento de outras casas de cultura de Orisa, este texto tem apenas o objetivo de chamar à reflexão. Independentemente do nome que se dá à pessoa que adentra na religião candomblé e que não é Elegun, em muitos locais vê-se a afirmação de que estas pessoas já nasceriam feitas de Orisa, e que portanto, bastaria que o Orisa apontasse, suspendesse e após, o zelador ou zeladora confirmaria aquela pessoa como Ogan, Ekeji, ou outra denominação que varia de acordo com a nação seguida.

Na tradição que sigo, tais procedimentos não são reconhecidos. E apenas por um motivo: como confirmar algo que não foi feito? Toda pessoa que necessite adentrar ao culto de Orisa, buscando a complementação energética necessária para um caminho de conquistas, saúde prosperidade, precisa passar por todos os ritos de iniciação...  e diferente não acontece com as pessoas que não entram em transe de Orisa.

É importante salientar também que toda pessoa iniciada em Orisa, seja Elegun ou não, torna-se Iyawò (aquele que assume compromisso com o Orisa), possuindo todos os mesmos deveres e obrigações.O fato de Ogans e Ekejis não entrarem em transe, aumenta ainda mais o comprometimento deles nas funções de um Ilè.  A eles cabe o dever de auxiliar o sacerdote em todos os momentos, preocupando-se em oferecer as condições necessárias para a realização dos ritos necessários.

Não entrar em transe de Orisa não é sinônimo de Poder. Pelo contrário: estar a todo momento consciente, determina que o Iyawò assuma a responsabilidade de propiciar o bem estar do Iyawò Elegun e que esteja atento para atender a todas as necessidades do Orisa, quando este estiver presente.


sábado, 23 de abril de 2011

Orisa errado: a não tão nova moda brasileira!

Atualmente são constantes as notícias de pessoas que são iniciadas várias vezes, para diferentes Orisa, outras que são iniciadas duas ou mais vezes para o culto do mesmo Orisa. E as justificativas são sempre as mesmas: ou a iniciação foi "feita errada", ou o Orisa estava "errado".

Deixando de lado a satisfação pessoal de muitos pais e mães de santo, que se alegram em afirmar e "demonstrar" publicamente o erro de seu "concorrente", nos dias atuais, todas essas situações são possíveis sim.

É natural que hoje pessoas iniciadas há meses já nasçam com o título de Oolorisa, principalmente aqueles que vêm de outro seguimento religioso, já com seguidores e casa "aberta". Para não tirar a autoridade da pessoa, e após o pagamento de uma quantia razoável, todo um teatro é armado para que os leigos acreditem que aquele indivíduo recém iniciado numa nova cultura já pode assumir a responsabilidade pelo destino de outras pessoas.

Acabado o preceito desses novos pais e mães de santo, a primeira providência que tomam é consultar para os seus seguidores e determinar que se iniciem em Orisa, sob o argumento de que Orisa quer a cabeça de fulano, está de costas para Sicrano, isso quando não afirmam que existe briga pelo Ori do sujeito... E tudo isso, espantosamente, logo após os novos zeladores terem gasto uma bom dinheiro e precisarem recuperar o "investimento" para a obtenção no novo título.

Existem ainda aqueles que embora já possuam alguns anos de iniciação, simplesmente sonham que o Orisa quer casa aberta e que precisam iniciar outras pessoas... E também sem preparo autorização e muitas vezes sem caminho real para o sacerdócio, simplesmente abrem suas casas e passam a lidar com o destino de pessoas movidas apenas pela fé e confiança irrestrita no ser humano.

Pois bem, o seguidor, na boa fé, entrega seu Ori nas mãos de pessoas desqualificadas e  despreparadas e se "iniciam" na cultura... Geralmente, tempos depois, perdem tudo, adoecem (isso quando não acontece coisa pior) e acabam por buscar outra pessoa. Tendo a sorte de encontrar alguém sério, é mais que natural que a iniciação forjada não seja reconhecida... e que o Orisa apontado pelo antigo "zelador" não corresponda ao Orisa de destino da pessoa. O que fazer? tampar o sol com a peneira e terminar de avalizar o erro de outro?

Nestes casos, outra saída não há, se não a iniciação efetiva - se realmente for caso de iniciação em Orisa para complementação de destino - e mais, no Orisa que realmente poderá efetivar a complementação necessária...

Muitos podem dizer: Ah!... mas na minha casa não é dessa forma! E concordo que não seja, mas só no ilè daqueles que tem coragem de expor as suas idéias. E estes são minoria na atualidade. E todos sabem que infelizmente é isso o que acontece diuturnamente em todo o País.

Se o zelador ou a zeladora são desqualificados para o sacerdócio, é totalmente possível afirmar que tanto a iniciação quanto o Orisa determinado também não correspondam com o destino e a necessidade do iyawò.

Banho de Abò e a transmissão de Asé

Muitas casas tradicionais de candomblé brasileiro e suas descendentes utilizam até os dias de hoje os banhos de abò preparados com vísceras de animais e outros ingredientes mais... Tudo acondicionado em um pote ou tambor durante longos períodos... Além do odor forte e desagradável, há a proliferação de bichinhos invertebrados das mais variadas espécies, cores e tamanhos.

Pais e mães de santo que adotam esse procedimento, sempre que questionados, afirmam apenas que abò é asé, que faz parte da tradição, que sempre foi feito dessa forma, e que assim deve continuar. Alguns utilizam esse abò não só para o banho, mas também determinam que seus filhos de santo ingiram esse preparado, para uma maior absorção de asé... O engraçado é que nunca ouvi relato de alguém que tenha visto o pai ou a mãe de santo ingerindo o tal do Abò...

Mas aí vem uma questão: se asé é energia e somente algo vivo é capaz de ainda possuir energia, o que é capaz de transmitir elementos em estado avançado de putrefação? Folhas possuem vida apenas  poucos momentos após a masseração... Ejé da mesma forma. E isso é facilmente compreendido, já que as células mantém-se vivas por pouco tempo após deixar o corpo que a abriga... Células mortas não possuem energia... Logo, não são passíveis de transmitir qualquer energia.

A cultura de Orisa é uma cultura viva e, para que seja manipulada de forma adequada é necessário também que utilizemos elementos vivos...

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Egungun e Candomblé - A grande farsa!

É comum nos dias de hoje, encontrarmos pessoas que afirmam possuir em suas casas de candomblé um assentamento de Egungun ou Egun. Outros ainda afirmam que são capazes de tirar ebó para afastar Egun, que fazem oferendas para Egun em cemitérios, visando amedrontar com a falsa promessa de prejudicar a vida de outras pessoas ou ainda, visando ganhar o dinheiro daqueles que vêem nessas falsas promessas a possibilidade de vingança sem deixar provas incriminadoras!

Quanta ilusão... quanto dinheiro jogado fora! quanta energia negativa essas pessoas atraem para a sua vida! quanto tempo perdido.

Não tenho aqui a intenção de discorrer profundamente sobre a cultura de Egungun, já que essa cultura é destinada apenas para Homens. Mas o fato é que a cultura de Egungun somente pode e deve ser praticada por pessoas preparadas e autorizadas para tanto. Ademais, a cultura de Egungun (ou Egun) não é destinada à pratica do mal ao próximo. Pelo contrário! Trata-se de uma cultura destinada à prosperidade de todo um clã, com orientações morais e éticas rígidas.

Já que somente pode ser praticada por pessoas preparadas e autorizadas, a cultura de Egungun não está ao alcance de pais e mães de santo. Ademais, a cultura de Egungun também não pode conviver no mesmo local, no mesmo solo da cultura de Orisa. Como então explicarmos a cultura desenvolvida por pessoas que são de candomblé?

É fato (e eu já presenciei) que algumas casas de candomblé brasileiro mantém em seu solo ossadas humanas enterradas, e que são chamadas de Egun. O espírito que foi dono daquilo que se resumiu a ossos é evocado, e os ditos pais e mães de santo se utilizam dele para a realização das mais diversas determinações. Além de não alcançarem o objetivo pretendido,o fato é que estes pais e mães de santo possuem a falsa ilusão de controle sobre aquela energia... Ledo engano! Cedo ou tarde, o preço pago pela utilização indevida de uma energia será cobrado. E essa cobrança se estende geralmente a todos os membros da comunidade religiosa na qual o espírito era evocado.

A este espírito dá-se o nome de Oku. Não se assemelha a Egungun, já que os okus não possuem qualquer direcionamento ou evolução espiritual. Os okus não possuem discernimento sobre o certo ou errado. Assim como os pais e mães de santo que lidam com essa energia tem a falsa sensação de controle, os okus tem a convicção de que serão "controlados" somente enquanto a eles for conveniente.

É importante salientar também que a energia de oku não é compatível com a energia de Orisa. Onde está a energia de Oku, certamente não encontra-se presente a energia do ancestral divinizado. Logo, todos aqueles que buscam a sua própria evolução espiritual devem buscar entrar em harmonia com energias evoluídas. E essas energias certamente não estarão presentes em um local onde se cultua Okus.

Abiasé - as graves desvantagens de ser um!

Grande polêmica ainda hoje ainda gira em torno do tema Abiasé.

Alguns afirmam que Abiasé é aquela criança que já nasce iniciada na cultura de Orisa, já que recebe o Asé transferido na iniciação da gestante. Outros afirmam que abiasé também pode ser aquela criança que já nasce feita em Orisa porque na sua encarnação anterior, foi devidamente iniciada (pasmen!).

Segundo a tradição de minha cultura, Abiasé é aquela criança que recebe algum tipo de asé, de energia, através de sua mãe, durante a gestação. Mas isso não quer dizer que a criança nasça iniciada em qualquer cultura que seja.

Durante a gestação, não é indicado que a mulher passe nem mesmo por um ebó, que dirá pelo rito de iniciação a Orisa. E por um simples motivo: toda a movimentação energética praticada naquele momento, será direcionada também para a criança que se encontra no ventre materno. E isso pode acarretar a modificação do destino daquela criança ainda por nascer.

Cada pessoa possui o seu próprio destino. E para nossa cultura, a prática de movimentação de energia para uma pessoa não deve ser utilizada indistintamente para alguém que possui destino diferente.

Como consequência natural de iniciação em Orisa de uma gestante temos, por muitas vezes, a necessidade de iniciação futura daquela criança no culto ao mesmo Orisa de sua mãe, mesmo que outro Orisa tenha sido designado para complementar a energia daquela criança... E isso pode causar consequências indesejáveis, pois consequentemente o abiasé deixará de ter o complemento adequado e necessário para o alcance de seus propósitos de vida.