sábado, 30 de julho de 2011

Dizem que Deus é Brasileiro... Será que Orisa também é?

É comum nos dias de hoje encontrarmos pessoas de religião afro-brasileira, e que possuem como objeto de culto os Orisa (denominação utilizada de forma genérica por muitos para designar tanto os próprios Orisa, como Vodun e Nkisse), criticando o chamado por eles Africanismo.

E os mais diversos argumentos são utilizados, desde os de cunho preconceituoso e discriminatório, até aqueles que tentam colocar a "raça" brasileira em um patamar de maior evolução que os africanos. E pasmem, africanos estes detentores do culto a Orisa em sua originalidade.

É compreensível até que alguns ajam desta maneira. Afinal, todos esses que adotam essa postura, no meu ponto de vista, são aqueles que durante anos, vivenciaram e aprenderam conceitos de forma superficial, e, após anos vivendo na ignorância, e transmitindo também essa mesma ignorância para seus "filhos de santo", não conseguem, nesta altura de sua trajetória de vida, terem a humildade suficiente para assumirem perante a sua comunidade, que sempre estiveram equivocados.

Fato é também que nós brasileiros, por mais que nos esforcemos, dificilmente conseguiremos aqui em nosso País, reconstituir de forma integral, o culto original. Mas a nossa falta de condições e de capacidade para tanto, não nos dá o direito, a meu ver, de menosprezar a cultura africana, para desta maneira, tentar convencer se não a nós mesmos, a nossos seguidores, que a nossa cultura é melhor... Pelo contrário! Nós brasileiros, que nos apropriamos (ou para alguns se sentirem mais confortáveis - recebemos como herança cultural) do objeto de culto africano, deveríamos ter a humildade suficiente para reconhecer o quão ainda temos que melhorar, para que alcancemos patamar um pouco mais elevado de valores e posicionamento ético frente a cultura de Orisa.

Somente a título de exemplificação do que tento aqui expor, vejam: a maioria dos brasileiros em algum momento da vida já devem ter ouvido falar de Padre Cícero,que graças à fé das pessoas, fez com que Juazeiro do Norte fosse considerado um dos maiores centros religiosos da América Latina, atraindo milhões de romeiros todos os anos. Pois bem... e a maioria das pessoa também já viram a imagem de padre Cícero, com sua batina e seu chapéu...

Já imaginaram se algum dia, os gaúchos do Rio Grande do Sul, resolvessem que, tendo como objeto de culto o mesmo Padre Cícero do Nordeste, deveriam vestí-lo com bombacha e adicionar a sua imagem uma cuia de chimarrão? Deixaria de ser padre Cícero? Claro que não! Mas a sua originalidade já estaria perdida. Provavelmente, os seguidores de Padre Cícero do Norte do País encararia tal atitude dos gaúchos como uma grande ofensa! E isso falando somente de um único País!

E isso se dá com qualquer cultura! Porque toda a cultura possui os seus elementos fundamentais!

Então, sob o meu ponto de vista, os brasileiros de religião afro-brasileira precisam rever seus conceitos... Afinal de contas, quem é que realmente tem motivos de sobra para se sentir ofendido e invadido dentro de sua cultura, religiosidade é fé?

Porque, até onde sei, Orisa não é brasileiro... ou é?

terça-feira, 5 de julho de 2011

Sapato ou pés descalços: qual o verdadeiro fundamento?

Desde o momento em que uma pessoa começa a frequentar um ilè asé, uma das primeiras recomendações é que deve sempre permanecer de pés descalços.

E isso realmente tem sentido, já que no momento em que a pessoa está em contato direto com a terra, melhor se torna a transmissão do asé.

Todavia, é natural também que identifiquemos uma pessoa que tem cargo dentro da comunidade pelo fato de que estas pessoas estarão sempre calçadas. Iyálorisa e Ekeji então! Quanto maior o salto maior o conhecimento!!!!!!!!!! (sic)

Pois bem, então pergunto: se a transmissão do asé ocorre de forma mais efetiva com o contato dos pés com a terra, pessoas que possuem cargo não precisam mais dessa transmissão? Estão já acima do bem e do mal?

Para mim a realidade é muito simples: as pessoas não sabem qual o significado real de estar em contato direto com a terra. E utilizam o argumento de que abian e iyawò devem permanecer descalços pelo simples fato de entenderem que eles são nada... Ressalto também que na época da escravidão, os escravos não podiam utilizar sapatos - cujo uso era reservado apenas aos senhores de escravos.

Será isso apenas mais uma coincidência?

Pés descalços não é sinônimo de humilhação! Pés descalços não é sinônimo de submissão! Pés descalços é antes de tudo sinônimo de respeito! Logo, para mim, os detentores de cargos dentro de um ilè asé deveriam ser os primeiros a estar em contato com a terra, podendo assim, ter condições de melhor transmitir o asé pretendido.

Do arroz elétrico ao sapatinho de cristal...

Quando falamos em Orisa no Brasil, duas características são marcantes: oferendas deixadas por dias no local de culto e luxo das festas oferecidas...

Este é mais um ponto que não consigo encontrar lógica (se alguém puder me ajudar agradeço).

Em um ilè asé acredito que a finalidade primordial é o bem estar da comunidade, com a busca contante de saúde e prosperidade para todos os integrantes da casa. Pois bem, tendo esse ponto como pacífico, questiono-me: como conseguir tais objetivos em meio a tanta sujeira? E aquelas comidas oferecidas que apodrecem e cheiram mal? E os arroz elétricos que são "gerados" na oferenda - aqueles bigatinhos brancos enlouquecidos que se deliciam na comida apodrecida? Isso sem falar nas demais espécies que surgem como por encanto e que são das mais variadas cores e tamanhos...

Qual a finalidade das pessoas ficarem em contato com os animais mortos por dias - animais estes que criam vida, já que recheados de larvas (só faltam sair andando)?

O interessante é que durante as festividades, as mesmas pessoas que vivem na sujeira e podridão dias e mais dias, vestem suas lindas e caras roupas - geralmente compradas com muito sacrifício - vestem seus lindos sapatinhos de cristal, com saltos que chegam às alturas, simplesmente para darem close na sala e saírem lindos nas fotos que minutos após a festa já estarão disponíveis para que todos se surpreendam com tanto luxo...

Por isso que hoje venho pedir que me ajudem a entender essa lógica brasileira... quero entender o significado da sujeira e podridão e também a necessidade de mostrar um luxo que na maioria das vezes não é condizente com o estilo de vida da maioria das pessoas...

Alguém se habilita?