segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ogans e Ekeji - Iniciar ou Confirmar?

Sem ter a pretensão de apontar como certo ou errado o procedimento de outras casas de cultura de Orisa, este texto tem apenas o objetivo de chamar à reflexão. Independentemente do nome que se dá à pessoa que adentra na religião candomblé e que não é Elegun, em muitos locais vê-se a afirmação de que estas pessoas já nasceriam feitas de Orisa, e que portanto, bastaria que o Orisa apontasse, suspendesse e após, o zelador ou zeladora confirmaria aquela pessoa como Ogan, Ekeji, ou outra denominação que varia de acordo com a nação seguida.

Na tradição que sigo, tais procedimentos não são reconhecidos. E apenas por um motivo: como confirmar algo que não foi feito? Toda pessoa que necessite adentrar ao culto de Orisa, buscando a complementação energética necessária para um caminho de conquistas, saúde prosperidade, precisa passar por todos os ritos de iniciação...  e diferente não acontece com as pessoas que não entram em transe de Orisa.

É importante salientar também que toda pessoa iniciada em Orisa, seja Elegun ou não, torna-se Iyawò (aquele que assume compromisso com o Orisa), possuindo todos os mesmos deveres e obrigações.O fato de Ogans e Ekejis não entrarem em transe, aumenta ainda mais o comprometimento deles nas funções de um Ilè.  A eles cabe o dever de auxiliar o sacerdote em todos os momentos, preocupando-se em oferecer as condições necessárias para a realização dos ritos necessários.

Não entrar em transe de Orisa não é sinônimo de Poder. Pelo contrário: estar a todo momento consciente, determina que o Iyawò assuma a responsabilidade de propiciar o bem estar do Iyawò Elegun e que esteja atento para atender a todas as necessidades do Orisa, quando este estiver presente.


sábado, 23 de abril de 2011

Orisa errado: a não tão nova moda brasileira!

Atualmente são constantes as notícias de pessoas que são iniciadas várias vezes, para diferentes Orisa, outras que são iniciadas duas ou mais vezes para o culto do mesmo Orisa. E as justificativas são sempre as mesmas: ou a iniciação foi "feita errada", ou o Orisa estava "errado".

Deixando de lado a satisfação pessoal de muitos pais e mães de santo, que se alegram em afirmar e "demonstrar" publicamente o erro de seu "concorrente", nos dias atuais, todas essas situações são possíveis sim.

É natural que hoje pessoas iniciadas há meses já nasçam com o título de Oolorisa, principalmente aqueles que vêm de outro seguimento religioso, já com seguidores e casa "aberta". Para não tirar a autoridade da pessoa, e após o pagamento de uma quantia razoável, todo um teatro é armado para que os leigos acreditem que aquele indivíduo recém iniciado numa nova cultura já pode assumir a responsabilidade pelo destino de outras pessoas.

Acabado o preceito desses novos pais e mães de santo, a primeira providência que tomam é consultar para os seus seguidores e determinar que se iniciem em Orisa, sob o argumento de que Orisa quer a cabeça de fulano, está de costas para Sicrano, isso quando não afirmam que existe briga pelo Ori do sujeito... E tudo isso, espantosamente, logo após os novos zeladores terem gasto uma bom dinheiro e precisarem recuperar o "investimento" para a obtenção no novo título.

Existem ainda aqueles que embora já possuam alguns anos de iniciação, simplesmente sonham que o Orisa quer casa aberta e que precisam iniciar outras pessoas... E também sem preparo autorização e muitas vezes sem caminho real para o sacerdócio, simplesmente abrem suas casas e passam a lidar com o destino de pessoas movidas apenas pela fé e confiança irrestrita no ser humano.

Pois bem, o seguidor, na boa fé, entrega seu Ori nas mãos de pessoas desqualificadas e  despreparadas e se "iniciam" na cultura... Geralmente, tempos depois, perdem tudo, adoecem (isso quando não acontece coisa pior) e acabam por buscar outra pessoa. Tendo a sorte de encontrar alguém sério, é mais que natural que a iniciação forjada não seja reconhecida... e que o Orisa apontado pelo antigo "zelador" não corresponda ao Orisa de destino da pessoa. O que fazer? tampar o sol com a peneira e terminar de avalizar o erro de outro?

Nestes casos, outra saída não há, se não a iniciação efetiva - se realmente for caso de iniciação em Orisa para complementação de destino - e mais, no Orisa que realmente poderá efetivar a complementação necessária...

Muitos podem dizer: Ah!... mas na minha casa não é dessa forma! E concordo que não seja, mas só no ilè daqueles que tem coragem de expor as suas idéias. E estes são minoria na atualidade. E todos sabem que infelizmente é isso o que acontece diuturnamente em todo o País.

Se o zelador ou a zeladora são desqualificados para o sacerdócio, é totalmente possível afirmar que tanto a iniciação quanto o Orisa determinado também não correspondam com o destino e a necessidade do iyawò.

Banho de Abò e a transmissão de Asé

Muitas casas tradicionais de candomblé brasileiro e suas descendentes utilizam até os dias de hoje os banhos de abò preparados com vísceras de animais e outros ingredientes mais... Tudo acondicionado em um pote ou tambor durante longos períodos... Além do odor forte e desagradável, há a proliferação de bichinhos invertebrados das mais variadas espécies, cores e tamanhos.

Pais e mães de santo que adotam esse procedimento, sempre que questionados, afirmam apenas que abò é asé, que faz parte da tradição, que sempre foi feito dessa forma, e que assim deve continuar. Alguns utilizam esse abò não só para o banho, mas também determinam que seus filhos de santo ingiram esse preparado, para uma maior absorção de asé... O engraçado é que nunca ouvi relato de alguém que tenha visto o pai ou a mãe de santo ingerindo o tal do Abò...

Mas aí vem uma questão: se asé é energia e somente algo vivo é capaz de ainda possuir energia, o que é capaz de transmitir elementos em estado avançado de putrefação? Folhas possuem vida apenas  poucos momentos após a masseração... Ejé da mesma forma. E isso é facilmente compreendido, já que as células mantém-se vivas por pouco tempo após deixar o corpo que a abriga... Células mortas não possuem energia... Logo, não são passíveis de transmitir qualquer energia.

A cultura de Orisa é uma cultura viva e, para que seja manipulada de forma adequada é necessário também que utilizemos elementos vivos...

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Egungun e Candomblé - A grande farsa!

É comum nos dias de hoje, encontrarmos pessoas que afirmam possuir em suas casas de candomblé um assentamento de Egungun ou Egun. Outros ainda afirmam que são capazes de tirar ebó para afastar Egun, que fazem oferendas para Egun em cemitérios, visando amedrontar com a falsa promessa de prejudicar a vida de outras pessoas ou ainda, visando ganhar o dinheiro daqueles que vêem nessas falsas promessas a possibilidade de vingança sem deixar provas incriminadoras!

Quanta ilusão... quanto dinheiro jogado fora! quanta energia negativa essas pessoas atraem para a sua vida! quanto tempo perdido.

Não tenho aqui a intenção de discorrer profundamente sobre a cultura de Egungun, já que essa cultura é destinada apenas para Homens. Mas o fato é que a cultura de Egungun somente pode e deve ser praticada por pessoas preparadas e autorizadas para tanto. Ademais, a cultura de Egungun (ou Egun) não é destinada à pratica do mal ao próximo. Pelo contrário! Trata-se de uma cultura destinada à prosperidade de todo um clã, com orientações morais e éticas rígidas.

Já que somente pode ser praticada por pessoas preparadas e autorizadas, a cultura de Egungun não está ao alcance de pais e mães de santo. Ademais, a cultura de Egungun também não pode conviver no mesmo local, no mesmo solo da cultura de Orisa. Como então explicarmos a cultura desenvolvida por pessoas que são de candomblé?

É fato (e eu já presenciei) que algumas casas de candomblé brasileiro mantém em seu solo ossadas humanas enterradas, e que são chamadas de Egun. O espírito que foi dono daquilo que se resumiu a ossos é evocado, e os ditos pais e mães de santo se utilizam dele para a realização das mais diversas determinações. Além de não alcançarem o objetivo pretendido,o fato é que estes pais e mães de santo possuem a falsa ilusão de controle sobre aquela energia... Ledo engano! Cedo ou tarde, o preço pago pela utilização indevida de uma energia será cobrado. E essa cobrança se estende geralmente a todos os membros da comunidade religiosa na qual o espírito era evocado.

A este espírito dá-se o nome de Oku. Não se assemelha a Egungun, já que os okus não possuem qualquer direcionamento ou evolução espiritual. Os okus não possuem discernimento sobre o certo ou errado. Assim como os pais e mães de santo que lidam com essa energia tem a falsa sensação de controle, os okus tem a convicção de que serão "controlados" somente enquanto a eles for conveniente.

É importante salientar também que a energia de oku não é compatível com a energia de Orisa. Onde está a energia de Oku, certamente não encontra-se presente a energia do ancestral divinizado. Logo, todos aqueles que buscam a sua própria evolução espiritual devem buscar entrar em harmonia com energias evoluídas. E essas energias certamente não estarão presentes em um local onde se cultua Okus.

Abiasé - as graves desvantagens de ser um!

Grande polêmica ainda hoje ainda gira em torno do tema Abiasé.

Alguns afirmam que Abiasé é aquela criança que já nasce iniciada na cultura de Orisa, já que recebe o Asé transferido na iniciação da gestante. Outros afirmam que abiasé também pode ser aquela criança que já nasce feita em Orisa porque na sua encarnação anterior, foi devidamente iniciada (pasmen!).

Segundo a tradição de minha cultura, Abiasé é aquela criança que recebe algum tipo de asé, de energia, através de sua mãe, durante a gestação. Mas isso não quer dizer que a criança nasça iniciada em qualquer cultura que seja.

Durante a gestação, não é indicado que a mulher passe nem mesmo por um ebó, que dirá pelo rito de iniciação a Orisa. E por um simples motivo: toda a movimentação energética praticada naquele momento, será direcionada também para a criança que se encontra no ventre materno. E isso pode acarretar a modificação do destino daquela criança ainda por nascer.

Cada pessoa possui o seu próprio destino. E para nossa cultura, a prática de movimentação de energia para uma pessoa não deve ser utilizada indistintamente para alguém que possui destino diferente.

Como consequência natural de iniciação em Orisa de uma gestante temos, por muitas vezes, a necessidade de iniciação futura daquela criança no culto ao mesmo Orisa de sua mãe, mesmo que outro Orisa tenha sido designado para complementar a energia daquela criança... E isso pode causar consequências indesejáveis, pois consequentemente o abiasé deixará de ter o complemento adequado e necessário para o alcance de seus propósitos de vida.